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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

OBSESSIVIDADE INTERMITENTE | 10

logoOBI[3][4][4]Intermitente vontade de querer ser.

Nós sabemos dos outros, sabemos sempre dos outros, pensamos sempre dos outros, mas de nós muito pouco. Ninguém se lembra do tão pouco que fez quando mais foi preciso. Bom, desfigurações à parte. Um destes dias conheci a música dos Lua Cadillac. Apetecia-me refazer um texto que cá publiquei há uns tempos. Mas que bandão! Pena é que ninguém veja. Bom, acredito que já alguns tenham visto, mas se calhar é muito rock para a Universal e para a EMI, quer dizer, entenda-se, rock em português é sempre igual aos Ornatos. Vou só torcer um bocado a cara. Porra! Desde quando é que cantar em português soa sempre a Ornatos? Ok. Há bastantes por aí que não têm ainda direcção musical ou de vontade, que lhes diga qual a direcção que têm ou devem ou querem tomar, na sua música, mas muitos há que lá vão. Eu não sei, é que, não querendo repetir-me, lembro-me de há uns anos ter aparecido uma banda chamada Blind Zero... Espera, essa não vale, soava a Pearl Jam e Pearl Jam, mesmo quando imitado, deve soar bem... Hmmm... Bom senso, por favor. Ok, não vou partir aqui facções. Tenho bons amigos que possivelmente discordariam comigo, mas alguém consegue perceber onde quero chegar? Os Toranja (banda da qual até gosto), quando aparecem, nota-se uma clara influência e até necessidade de referência ao Jorge Palma. Métrica, composição, melodicamente falando, não? Julgo que não cometo nenhum crime ao dizer que aquilo era uma cópia, em algumas alturas, mas é isso mesmo que uma banda faz, procura. Até mesmo quando tiveram o êxito que foi “A Carta”. Nunca ninguém reparou que aquilo tem a métrica e os acordes de uma música dos Mamonas Assassinas? A minha batalha agora é no onde é que isto está certo e onde é que isto está errado. Por um lado, uma banda que procurava uma sonoridade conseguiu um contrato com a Universal (se não me falha a memória), tocou em tudo que era festival quando lançou o primeiro disco, teve concertos com 10 pessoas a ver até quando já tinham lançado o segundo disco e andam banda aí, como os Lua Cadillac, com algo novo e interessantíssimo que não têm essa oportunidade. Ora bem, isto é a título de exemplo. Nesta altura já nem pode ser dor de cotovelo por eles terem conseguido e eu não, é apenas uma constatação, certa, meus caros? Os Homem Mau, muito estimados amigos, editaram a semana passada o seu primeiro álbum, sozinhos, sem a ajuda de ninguém. Tocam para 10 pessoas muitas vezes... São inacreditáveis, uma banda como eu nunca vi igual aqui em Portugal, por muito que goste de Ornatos e de Zen e de todas as bandas que muito nos fazem sonhar no seu regresso, vejo coisas novas que ainda me fazem sonhar com a esperança de haver quem realmente ame de verdade. Sim, porque é como a crise mundial do casamento e consequente divórcio: nem todos têm de se divorciar, mas tende a aumentar isto.

Domingo, véspera de feriado, apresentação do álbum de Homem Mau no Plano B, Porto.

Davide Lobão | www.myspace.com/chemicalwire

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

OBSESSIVIDADE INTERMITENTE | 9

logoOBI[3][4][4]O Tony é que sabe.

Pergunto-me se há alguma banda em Portugal que encha o Pavilhão Atlântico. Pergunto-me se há alguma banda em Portugal que seja digna de um culto, sistemático por todo o mundo, de movimentar multidões para verem as sua actuações - claro, tenho que não contar com o Tony Carreira, porque esse movimenta mesmo multidões. Ainda o fim-de-semana passado, em Ermesinde, transformou aquela pequena cidade num espaço digno de um festival. No dia anterior estive lá a ver José Carlos Pereira e Cazino e teria cerca de 1000 pessoas, na mais optimista das opiniões. No dia a seguir foi realmente impressionante. Passei lá pela uma da manhã, vi pessoas a regressarem com o banquinho debaixo do braço, famílias a irem para casa, vi também a mãe, a filha e os três filhos da filha no café, à uma da manhã. Muito podemos concluir, daqui. Se é o Tony Carreira que enche realmente qualquer sítio, é de música ligeira que o país, na sua maioria, gosta. A maior fatia de pessoas de Portugal chega para esgotar e dar múltiplas platinas quando lança um disco. Não podemos nunca discutir a qualidade musical, neste caso, porque aí estaríamos a discutir gosto e isso é ridículo, neste momento, pois discutiria comigo próprio e depois vocês, que lêem estes textos, não discutiriam com ninguém, limitariam se a ignorar. E é mais uma vez a apatia a liderar. É a apatia geral. O povo sai à rua para ver o Tony mas nós não saímos à rua para ver as bandas que gostamos. Temos alguma vergonha de demonstrar a nossa simpatia pelo que quer que seja. Fica mal. Ou é a debandada geral para algum lado, tipo festival de verão, onde nos vamos entupir de coisas com meia dúzia de amigos, que a maior parte das vezes conhecemos mal, onde aproveitamos o pouco dinheiro que se gasta para fazer disso férias, ou então, sempre que seja mais que 0,1 euros que se pague ficamos em casa, porque não temos dinheiro e o tabaco e jantar fora, não é compatível com a maior parte dos concertos. Mas já só vai lá com um estudo sociológico e uma lavagem cerebral, caso contrário teríamos que acordar amanhã e a mentalidade ter mudado radicalmente. Dizem que em 2012 vai haver uma mudança grande a nível de consciência. Tomara que sim, que o ser humano evolua. Nós por cá, ainda nos custa mais do que o que conhecemos. A seu tempo, a seu tempo.

Davide Lobão | www.myspace.com/chemicalwire

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

OBSESSIVIDADE INTERMITENTE | 8

logoOBI[3][4]

Rigorosamente nada a ver com o que se pretende.

Hoje sou apenas um caso de pouca pele morena e de vontade de dormir. Preocupações à parte, comida à parte, muito sol, muito pouco de televisão aos potes. Passeios, coisas inúteis – férias. Talvez seja esta a altura do balanço do ano, é como o final do ano lectivo. Há já um ano que embarquei numa outra viagem para a viragem mas desde lá até aqui não ganhei aquele dinheiro que parece que as pessoas ganham. Se calhar escolhi mal a área. Ontem passeie-me na marina de Vilamoura. Acho que o parque de estacionamento está cheio, para os iates. Alguém sabe quanto custa um iate? Ah, e não me parece que os mais ricos do mundo parem todos cá, mas admito, embora não esteja como noutros anos há muito inglês. Está bom aqui. Admito que é igual ao Porto, toda a gente procura divertir-se. É como a baixa do Porto só que com mais calor, mais turistas e mais lojas com coisas inúteis ou seja, completamente diferente, mas num exercício mental, bastante parecidos. Aqui há aldeamentos, restaurantes, piscinas, gente em tronco nu, miúdas semi despidas, estrangeiros bastante vermelhos e as mesmas músicas de sempre. Mambo nº 5 e Macarena style. Talvez a adição importante deste ano seja a Billie Jean, do Michael Jackson. E é estranho, as pessoas procuram todas o Algarve para férias. Praia, calor, animação. No resto do ano, trabalho. Incomoda-me este pensamento. Se calhar é por ter um trabalho pouco convencional e não ter emprego. Sim, trabalho tenho com fartura, emprego é que nem vê-lo.

Por cá vê-se também música ao vivo, acima de tudo música para entreter estrangeiros. Summer of 69, Are you gonna be my girl?, Born in the USA, Jason Mraz, essas coisas assim que toda a gente conhece para toda a gente estar entretida o suficiente. Por cá já se tentam fazer festivais mas ninguém aparece, ou melhor, dizem as agências noticiosas, que esteve fraco. Mas vê-se uma coisa muito interessante. Os bares, para chamarem gente põe raparigas e rapazes a angariar clientes. Andam na rua, oferecem flyers. Uma prática comum, toda a gente conhece, mas aqui, sítios que vivem destas épocas altas, não se poupam a esforços de ter mais e mais clientes. Ora bem, trabalhamos (eu e mais meia dúzia de malucos em Portugal) nesta área das artes e do entretenimento (julgo que não ofendo ninguém ao dizê-lo) e investe-se imenso na internet e sair à rua, onde estão as pessoas, faz-se pouco. As ruas estão cheias de ladrões, diz-se, e é preciso ter cuidado. Trancar as portas, olhar sempre por cima do ombro. Cá não há problema nenhum. Até se vê, nitidamente, pessoas que tentam esquemas, assaltos e essas coisas, mas são tudo coisas de menor importância, afinal estamos de férias.

Davide Lobão | www.myspace.com/chemicalwire

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

OBSESSIVIDADE INTERMITENTE | 7

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Havaianas no Verão.

A era é global, é tudo global. A internet diz-nos que todos podemos ter acesso a tudo, estejamos nós onde estivermos, só é preciso que haja uma ligação à Web. No entanto a escolha tende a estreitar-se sempre. Somos invadidos com escolhas feitas previamente a toda a hora. E essa escolha fizemo-la nós? Se calhar, ao olhar dos mais desatentos sim, mas pensar acerca disso dá-me uma estranha sensação de enjoo. Andei à procura de uns chinelos, qualquer coisa para se calçar quando se vai à praia ou à piscina. Fui à zona comercial mais próxima, só havia havaianas. Certo está que de muitas cores e com desenhos diferentes mas não tinha nenhum outro tipo. O que está mal aqui?

Há já uns anos que sou utilizador assíduo da internet e da Web 2.0. O facto de ter uma banda leva-me a encontrar soluções para conseguir promover e chegar até mais gente (e a história das havaianas continua). Em 2004 registei uma conta no myspace e ao longo destes últimas anos fui reparando como as tendências e as modas são mesmo importantes para atingir as massas, também na internet, que seria por excelência o meio mais liberal que existe no mundo de livre circulação de bens culturais e não só. Pois então, myspace em 2004, fotolog em 2005, hi5 em 2006 e hoje facebook e twitter. Pois agora é mais importante dizer o que estamos a fazer neste momento, não que realmente interesse a alguém mas sim porque é apelativo ter uma imagem cool, ter alguém que nos segue, ter amigos que gostariam de nos ver um dia, encontrar gente. Esta porrada de contra-sensos deixa-me sempre meio azoado, de modo que começo a achar que, no que diz respeito a divulgação online, estamos apenas a lidar com o factor sorte / moda. Tomara que o género que eu tenho seja moda um dia, senão estou realmente fodido.

Neste seguimento intriga-me a gripe A. Estou realmente intrigado com a forma como tenho visto isto a decorrer. Diz-se nas notícias que o Reino Unido é um dos países com mais casos e não há nenhum alarido daquela parte. Nas nossas notícias passam todos os dias o número de casos até agora e como combater. Em França não querem adiar o ano escolar mas já criaram um plano para dar aulas por televisão às crianças. Espero honestamente que alguém leia isto e se manifeste! DAR AULAS POR TELEVISÃO A CRIANÇAS. O futuro pode ser realmente assustador se este cultivo do medo e da influência total sobre as nossas escolhas continuar. Já não é só na música, no meio que mais me interessa trabalhar. É nesta perspectiva global de manipulação das massas e chateia-me de uma forma absurda, que a maior parte nem sequer perceba a manipulação que está a sofrer! Temos computadores portáteis, cada um o seu, temos telemóveis com internet, temos 1000 canais em casa, na televisão, e ainda assim enfiam-nos pela cabeça a dentro havaianas, gripe A e bandas que supostamente são o que devemos ouvir (não menciono nomes porque fica ao critério de cada um), o que está mal aqui? Digam-me! Hoje, nas notícias, era a ida ao Algarve que preocupa os especialistas, porque está cheio de estrangeiros e depois as pessoas quando voltarem vão trazer a gripe. Um amigo disse-me uma vez: “qualquer dia põe-nos um gajo à porta a dizer-nos que não podemos sair”. Estaremos tão longe disso? Acho que já lá chegamos. Esse gajo está todos os dias nas notícias. É urgente, isto é tudo muito urgente.

Ninguém estranha o porquê de estarmos a levar sempre com as mesmas músicas na televisão e na rádio? Ninguém estranha? Ninguém estranha nada? Também sentirmo-nos impotentes não resolve de nada. Podemos fazer muito por isso, não basta encolher os ombros.

Preocupa-me tudo isto mas felizmente temos os Biffy Clyro no Santiago Alquimista, dia 12 de Dezembro.

E para terminar: “Living is a problem because everything dies”.

Davide Lobão | www.myspace.com/chemicalwire

quinta-feira, 16 de julho de 2009

OBSESSIVIDADE INTERMITENTE | 6

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Ideias partidas

Havia, e há, milhares de coisas das quais nos devemos debater todos os dias. Este conformismo exacerbado, esta vontade de não-vontade e de inércia constante parte-me em cacos. Vim agora do Armazém do Chá. Estive a trabalhar. É quarta-feira. A casa estava cheia. Os Blind Charge tocaram, as pessoas apareceram. É QUARTA-FEIRA. Mesmo com gripe A, com crise, com exames, com falta de vontade e disponibilidade, o Armazém estava cheio. O que está mal aqui?

O myspace e o facebook são maravilhosos. O reverbnation.com é incrível. Até permite criar uma mailing list automática e um press kit. Vocês, que têm bandas: já têm discos? Músicas bem gravadas? Um cd para enviar às rádios e às editoras? Já têm fotos? Um press kit? Críticas de blogs de amigos? Críticas de jornais? De revistas? Já está tudo pronto?

Têm bandas? Debatam-se com a ideia de tudo ser o melhor, mas mesmo o melhor que conseguem. Peçam que vos apontem defeitos, aprendam com isso. Deixem que falem mal de vocês nos fóruns da cena e não da cena, que os “entendidos” do 2.0 vos digam o que devem ou não fazer e desprezem-nos, tendo-os em conta, façam o que vos apetecer, mas acreditem, PORRA! “Ainda não soou coeso, consistente, inerente, não é etéreo, não tenho som, não está bem, falhei ali e acolá – só precisas de uma voz, uma só e tens música, só precisas de ter alguma coisa para dizer, alguma coisa que seja realmente importante, alguma história que aches que realmente importe. Não encham o mundo de merda, por favor, não encham. Tem que haver loucura, tem que haver vontade, tem que haver som, muito som! Não nos deixem às escuras. Deixem-nos improvisar. É que vem 2012 e o mundo vai mudar, tal e qual como vai mudar amanhã, porque algo está sempre acontecer e fazer a diferença é partilhar, é ter algo realmente importante para partilhar porque não importa ser diferente, importa é ser. E não é ser diferente, é ser! Deixem-se de presunções, deixem de cantiguinhas vazias de telenovela (que as há boas, até nas telenovelas). Sejamos hipócritas, sejamos labregos, sejamos sujos e pendejos, mas com estilo.

Davide Lobão | www.myspace.com/chemicalwire

quinta-feira, 2 de julho de 2009

OBSESSIVIDADE INTERMITENTE | 5

logoOBIParece-me que está a dar uma terrível vontade de fazer a lírica parecer português e atropelar-se nos dias que se fazem aqueles versos em que se dizem coisas que desmontadas, são pela realidade do que se deseja, que é reconhecimento puro da beldade absurda de não se dizer coisa nenhuma quando realmente não se tem nada para dizer.

Projectos novos? Bons, alguns. Pseudos, muitos.

Custa-me continuar a ver que o seguidismo é o que de mais agradável tem este país. Talvez por termos 50 anos de atraso, em relação aos outros países, pudéssemos ver, de forma consequente, que o que eles fazem mal nós não precisamos de fazer igual. Talvez pudéssemos ver que realmente não é preciso ser igual ao que está a dar (a não ser que não saibas fazer outra coisa, filho). Podemos também ser todos iguais, vá. Diga-se que isto tem a ver com um certo esquema sociológico de tendências actuais. Ser diferente é cool, ter carisma e personalidade. Que dirão os amish?

Há uma certa evolução notória para sítio nenhum, que acaba por andar sempre para algum lado. Afinal vivemos todos os dias, nada a fazer. Mas será que toda a gente continua a não ter nada a dizer? Será que sou eu, que feito maluco, me canso de ver seguidismos de coisas feitas para as garagens dos amigos que, por direito próprio, se tornaram planos, cabarets, caixas de música eventos para o prazer dos mesmos? Será que é de mim? Será que é de mim ver bandas como Homem Mau e Sr. Acaso, que tão bem ficariam nessa luta pela bandeira da língua portuguesa e dignificaria com alguma novidade o que temos visto por aí? Será que é de mim? Ok, já antes disse que está melhor e que não é dramático, é um facto, mas há pequenas injustiças que me intrigam, que não me deixam dormir e que me fazem escrever isto às 6h da manhã. Será que os Tryangle, uma banda do norte do país, que não é conhecida pelo público em geral, consegue um contrato discográfico com a Lockjaw por não valer um caral*o? Ou nós é que andamos a dormir e a deixar essas bandas boas tocarem para 5 pessoas nos bares? Será que é preciso interceder uma conhecidíssima Everything is New, organizadora de eventos como o Alive, para percebermos que os MOSH, do Porto, já deviam estar há muito mais tempo a fazer Tours pelo mundo inteiro? Felizmente abriram o Manson cá no Coliseu, e sabem que mais? PARTIRAM TUDO!! Que será que é preciso? Que será que é preciso para em vez de serem as bandas a pedinchar para tocarem aqui e ali e para passarem na rádio, nós fazermos com que isso aconteça para elas? Solid, vocês conhecem Solid? Blind Charge? Hanging By a Name? Foda-*e, vocês já ouviram os Plus Ultra?

Anda tudo doido.

http://www.myspace.com/homemmau

http://www.myspace.com/sracaso

http://www.myspace.com/tryangletheband

http://www.myspace.com/moshmusic

http://www.myspace.com/solidpt

http://www.myspace.com/blindcharge

http://www.myspace.com/hangingbyaname

http://www.myspace.com/soonplusultra

Davide Lobão | www.myspace.com/chemicalwire

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Obsessividade Intermitente | 4

logo-obsessividadeEspeculativa4Não há estrada mais forte que a estrada que nos come o tempo para não fazermos o que nos é de direito. Há tudo e nada de não fazer desculpas para criar problemas para a lembrança depressa desaparecer.

Pois, de facto, fazer as coisas que realmente se quer fazer, sem ter o retorno monetário necessário para viver todos os dias, nem que seja na casa de outro, onde não pagamos água, luz e o empréstimo que nos acompanhará vida fora, é uma tarefa mais complicada que viver na rua. Dilema moral, destreza mental para criar as alternativas e as oportunidades de se viver melhor e com alguns trocos. Corro o risco sempre de me repetir, mas temos um meio de médicos, um de advogados, um de cozinheiros, de jardineiros, de canalizadores, de vendedores e porque raio não há um de músicos? Onde sejam pagos de forma digna, onde se possa reconhecer novos valores? Onde não se trafique o peso das influências? “Meu filho, ainda és muito novo, a vida é assim.” Como devemos ficar em relação a isto? Eu só vejo uma forma, intervir, partir coisas, nem que sejam as nossas, gritar de raiva, chamar-lhe filho da puta só para se virar a nós, sim, só para se virar a nós, mas ninguém o faz. O dia-a-dia é de afastar o que está mal, não de o enfrentar com todas as forças, even that it kills me, não é deixá-lo para lá, incomoda. Depois faz-se uma cara feia quando se vir o problema e faz-se de conta. Até eu próprio me vejo nessa intromissão absurda, mas a provocação é sempre uma arma. Esqueçam o cool, esqueçam a moda, esqueçam o estilo, esqueçam o que parece bem, toquem a vida e lembrem-se disso tudo, porque vai destruir-vos aos poucos a lembrança do que está mal lá atrás, por isso celebrem-no cá à frente, até que vos partam a cara.

Davide Lobão | www.myspace.com/chemicalwire

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Obsessividade Intermitente | 3

logo-obsessividadeEspeculativa4

Toda a gente tem uma preocupação genuína sobre alguma coisa. Alguma coisa circula a uma velocidade surpreendente para todo o lado. Ninguém consegue preocupar-se com nada durante mais de cinco minutos. Todos se preocupam com tudo, consigo mesmo. Ninguém se preocupa com nada. Senão com a sua concretização pessoal.

É, este mundo confunde-me. Querer fazer algo realmente bom é por vezes uma tarefa bastante ingrata, mesmo quando se faz um trabalho bom há já algum tempo. Não adianta. O que adianta é exigir e partir cada coisa que não é do nosso agrado.

No mundo existem milhões de coisas, milhões que conhecemos outras que não conhecemos e que fazemos com elas todas? Alguém sabe?

Eu toco guitarra, tenho a minha banda, sei das preocupações de conseguir ter este emprego que tanto quero, este trabalho que tanto quero, fazer música, mas existem milhões de coisas, milhões de coisas que desconhecemos. Eu canto as coisas que estão mal, canto aquelas que estão mal só comigo ou só contigo e no fim tenho que enrolar o cabo e carregar a coluna para todo lado, para dizer outra vez aquilo que penso. Porque haveria de alguém se interessar por aquilo que penso? Se o outro for influente ou o outro tiver dinheiro ou esse que tenha dinheiro se interessar por mim, girarei em torno do mundo por todos me acharem o máximo. Por esta conclusão admiro os movimentos. Admiro o hardcore até ao fim. Há união, há vontade, há motivos e há sempre, sempre entreajuda. No resto? Apontamos os defeitos e deitamos abaixo. Não que os apoiantes do hardcore não o façam e não que eu seja um conhecedor e seguidor do género, mas admiro.

Existem estas quatro ou cinco coisas que eu sei, alguém quer saber delas?

Fiz o país, o nosso minúsculo mas lindíssimo país, a tocar aquilo que gosto. Não chegou. Já sei do muito que há e do pouco que temos mas não chegou. Há mais. Podemos sair fronteira fora, ver o que demais aí temos para comunicar. Podemos entrar fronteiras dentro gritar, berrar e fazer o barulho todo que nos apetecer. Organizar grandes coisas, fazer grandes coisas da vida. Deixar o diletante que o Eça tanto disse e partir para conquistar, conquistar os bons motivos, conquistar as vontades, conquistar aquilo que há tanto perdemos em nós, as crenças e as certezas de que iremos fazer algo bom. E isto só é sobre Portugal porque é aqui que eu vivo, porque na sua essência, é sobre a humanidade.

Davide Lobão | www.myspace.com/chemicalwire

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Obsessividade Intermitente | 2

logo-obsessividadeEspeculativa4De que se faz a música, música? Como distinguimos nós a banda que “está a começar”, da banda que “já começou”? No mundo profissional um indivíduo adquire experiência e desenvolve a sua capacidade de fazer um bom trabalho. Na arte requer-se que haja um talento inerente ao trabalho que se faz. Quando sabemos que critério nos permite gerir e distinguir as bandas a sério das que ainda não são a sério? Que critério permite?

Eu acredito, piamente, que há um momento qualquer, na vida de um colectivo de músicos, no qual todos estão seguros e crentes de que são uma coisa boa, bem feita e que tem interesse para quem os possa ouvir. E confiança gera mais confiança, auto-estima gera mais auto-estima. Senão como se compreenderia o sucesso de uns Oasis? Como se compreenderia e se idolatraria os actos dementes de Amy Whinehouse? Certo está que não agrada a todos e que os há puristas e críticos, com todo o direito. Tal como se costuma dizer, os gostos não se discutem. Mas isto são as nossas telenovelas diárias, em frente ao computador a espreitar para dentro da vida de toda a gente. Posso-vos garantir que se forem aos bares, ver as bandas ao vivo e gostarem do que estão a ver e abanarem o vosso corpo em concordância, coisas bastante interessantes acontecerão.

Nós, por aqui, preferimos queima das fitas e copos académicos, com contornos de praxe e exercício de poder. Pode até ir o Pete Doherty tocar e ganhar 40 000 dólares e ninguém o questionar, mesmo quando vem de guitarra e toca para uma multidão embriagada, sedenta de festa e de dançar. Mas eu não estive lá e com certeza muita gente deve ter gostado. Só me fazem confusão os 40 000 dólares. Mas acho que é assim que se paga lá, num evento que está sempre a abarrotar de gente independentemente das bandas que se ponha a tocar. Dá que pensar mais um bocadinho, dá, até porque as cidades param para a queima das fitas.

Relendo o que acima já foi vejo que poderá criar susceptibilidade a referencia a Oasis, à Amy Whinehouse e ao Pete Doherty, mas não se confundam, sou fã de todos e de Babyshambles e de Libertines. Sou fã das birras intermináveis dos irmãos e da forma como eles, sem qualquer pudor, são o que são sem sequer se preocuparem com isso. Mas a mim é isso que me aperta, a dificuldade que todos temos de ser aquilo que somos. Se calhar é por isto que tanto admiro os movimentos underground e o do it yourself, sinceramente, há outra maneira?

Esta semana, e após meses de insistência, finalmente apaixonei-me pelos Gallows.

Bandas com elevado grau de sinceridade requerem-se, urgente. Chamem as editoras e as pessoas que querem trabalhar nisto. Elas também existem fora da rádio e das luzes da ribalta.

Davide Lobão | www.myspace.com/chemicalwire

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Obsessividade Intermitente | 1

 logo-obsessividadeEspeculativa4

Dizem que o problema é começar, depois de começar a coisa lá vai. Ora bem, começar a acreditar talvez seja uma coisa que não nos é muito inata mas, desde sempre nos incutem a religião, porque não acreditar em alguma coisa? Portugal não continua à espera de D. Sebastião, não continua à espera que façam coisas por ele, nós deitamos mãos à obra. Finalmente percebeu-se que a música é mais do que o que se ouve na rádio ou se vê na MTV e finalmente percebeu-se que são tudo coisas que estão ao alcance de todos. Fico feliz por ver e ouvir as novidades e as interessantes propostas que viajam por todo o país, fico entusiasmado com a Optimusdiscos, com os festivais que se multiplicam e as pessoas que tentam organizar eventos para durar e vingar, sim, hoje estou optimista. Já conseguimos dizer uns dez nomes de bandas novas que têm discos, que tocam por aí e que tentam provar que a música vale sempre por ela própria, não pelo idioma em que é cantada, pelo estilo em que se insere nem pela editora que tem e, embora ainda muito dependa do factor cunha, extremamente importante num meio tão minúsculo como o nosso, é possível chegar lá por persistência e crença desmedida. Claro, não está ao alcance de todos, mas se pensarmos que o nosso país tem a mesma população de Londres talvez consigamos chegar algum lado. Todos os dias, na rádio, aparecem novas vozes que tentam furar neste meio musical, vozes essas que não se podem esquecer que moram no quarto ao lado do mercado internacional. Enviem os cds para as editoras estrangeiras. Já temos hoje, mais que em qualquer outra altura, bandas portuguesas que assinaram por editoras espanholas, inglesas, alemãs, que tocam pela Europa fora e se igualam a qualquer outra banda que venda ou, não se aplicando este termo, que seja muito popular no mundo todo. Portanto apague-se o estigma.

Só estou cansado dos jogos viciados, das promotoras dos pacotes, que levam as bandas atreladas umas às outras. Estou cansado das quotas de rádio que fazem que se ouça sempre as mesmas músicas e estou cansado das bandas que se querem enfiar na rádio porque sim. O espaço abre-se, não existe. E é esse espaço que temos que continuar abrir, com todas as nossas forças, dia após dia, com a liberdade de expressão, com os berros exagerados de uma revolta incansável, contra tudo e contra todos. Sair à noite, beber um copo, trocar uma canção, só porque podemos. Ver um concerto, embebedarmo-nos e rirmos sem parar até o sol nascer no horizonte. É um dia novo que está a nascer para todos.

Davide Lobão | www.myspace.com/davidelobao

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Notícias | Davide Lobão

Davide Certamente que pelo nome, algumas pessoas não chegarão lá. Mas se disser Chemical Wire, certamante já será mais fácil para muitos. Davide Lobão, é efectivamente vocalista e guitarrista da banda portuense Chemical Wire. No entanto, a par desse projecto, tem outro, em nome próprio. Um projecto a solo, onde evidencia um lado menos estravagante, mais calmo, onde predomina a guitarra acústica, a sua (fabulosa) voz, e magia.

Ainda sem uma edição oficial, Davide disponibilizou para audição, há já algum tempo, algumas músicas que poderão fazer parte (talvez) de um futuro trabalho seu, a solo. E que canções! Excelentes. Melodias cantagiantes, de uma beleza estonteante, e prova de que não é preciso mais do que uma guitarra e um homem com talento, para fazer grandes canções. "Salmão", e a versão de "Vicios Acabados" dos também portueses Homem Mau, são para já as minhas preferidas. Deste menino, feito homem, só espero o melhor, e certamente ouviremos ainda muitas coisas boas vindas dele, e sobre ele... Até lá, vão ao Myspace de Davide, e deliciem-se!

Myspace de Davide Lobão

terça-feira, 29 de abril de 2008

Opinião | A Busca Do Eterno Horizonte

Concerteza já todos nós pensamos em procurar e tentar encontrar e até mesmo tocar o horizonte, ver onde termina, senti-lo com o toque, mas pois meus amigos, não é de todo possível. A contemplação mais próxima que podemos ter com isso, é em verdadeiras obras primas de alguém que teve visão suficiente para nos mostrar na tela a beleza dessas imagens de nos fazer parar o raciocínio. Se calhar esta ambição de querer ir mais longe leva alguns a serem realmente algo para além do que conseguimos ver mas obriga outros, não sei porque carga de água, a encostarem-se a coisas que já existem. E cá vem a ponte para a música. Desde sempre roubamos ideias de todo o lado para criar, é filosofia, ética, estética, psicologia, sociologia e todas as –ias que quiserem por neste assunto. O problema maior nisto tudo é que parece quase um caso que requer ajuda psiquiátrica imediata. Talvez neste caso esteja a falar só de mim, pois é em mim que estes casos causa mais afrontamento e necessidade de acompanhamento especializado – medicação. Dói-me muito constatar a quantidade de bandas de tributo que se vêem por este país fora. Há muitas bandas que amo do coração e que gostaria de saber algum dia tocar ou cantar ou criar com um vigésimo da qualidade e criatividade que os vejo fazer, com a intenção toda focada, com um sentimento que nos liga todos os poros do nosso corpo ao bocadinho de música que nos dão a ouvir, mas porque haveria eu de querer fazer algo igual? Bom, talvez seja algo entranhado culturalmente ou então algo propício a adorações e obsessões que não têm que ser, obrigatoriamente, entendidas por todos. A minha questão acaba por ser mais branda à critica ao nosso pequeno Portugal porque somos constantemente bombardeados por bandas que se querem refazer umas às outras, bom...

Amem a música mas não percam o sentido critico.

Texto: Davide Lobão

email: davidelobao@hotmail.com

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Opinião | Sabe-se Que Eles Vêm Para Ficar

Ora bem, as conversas têm destas coisas, damos por nós a jurar e a prometer que acreditamos em novas gerações de músicos. Os realmente bons que gostamos, de outrora, desmembram-se ao chegarem perto dos actuais, que nos dão lembranças de coisas tão boas. Depois reparamos no esforço e nas coisas todas envoltas e percebemos a realidade da nossa pequenez, que neste momento é uma pequenez igual à de qualquer outro. Ligamos o computador e temos tudo à nossa mercê, tudo! Podemos saber o que cada pessoa está a fazer do outro lado do mundo. Então porquê teimar em fazer as coisas à português? Esta expressão tem de deixar de existir. Estou determinado! Havemos de ser melhores e maiores, esta geração, estes corpos que se movimentam perdidos com tantas coisas que lhes chegam aos ouvidos, perdidos em processamento de ideais que não são mais que blocos de crenças facilmente desmontáveis. Se apelarmos à massificação teremos pelo menos algo mais, se acreditarmos teremos tudo aquilo em que verdadeiramente acreditamos. Talvez não seja o imediato mudar o mundo mas mudar um de cada vez. Se um só for já estará a tarefa cumprida.

Texto: Davide Lobão
email: davidelobao@hotmail.com

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Opinião | A Esperança Vive Dentro De Uma Redoma

Somos pequenos casulos com informação litigiosa e confusa. Queremos coisas simples. Queremos um sorriso e uma lembrança de eternos momentos que não são mais que momentos. A memória há-de ir, um dia, embora, nunca mais seremos falados ou lembrados, carregados de vontade ou não. Não há tragicidade que se confunda aqui, apenas relatos de esperança. Este ano vamos fazer o que sempre quisemos, e nada nos há-de demover.

Conhecem-se algumas pessoas que nos fazem acreditar na boa vontade, o problema prende-se sempre com o excesso de informação. Damos por nós a pensar no que de mal alguém é ou tem mas o mais flagrante é fazermos esse exercício sobre nós mesmos. Há uma criação qualquer aqui, qualquer coisa a nascer dentro do mundo aclamado para acabar. Não perder ou deixar partir a sombra que fazemos ao sol é suficiente para continuarmos. Falar de impropérios e banalidades sempre foi o género do fácil que assim o diz. Ok, não há mais códigos. Fala-se de que não há mais nada novo, mais nada que nos agarre a uma que seja simplesmente boa para nós – mas onde ficou a convicção? Onde ficaram os anos de contemplação de espaços só nossos? Os ouvidos inchados e a doer, o fumo sem parar e o liquido que sempre nos fez sorrir? Parece fácil não parece? Recusar a confortável noção de que assim lá iremos mas arriscar na mesma no sonho de criança. Acredite-se ou não, codificado ou não, aqui está o meu desejo. Hoje não desisto, e espero pensar assim todos os dias da minha vida.

Texto: Davide Lobão

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Opinião | Revisão Parte 1

Em tempo de vacas magras, em altura de transição, em tempo de mutilação pessoal por excesso de informação e acidentes visionados por autores contemporâneos, subjugamos a nossa atitude nefasta a um síndrome incompreensível de auto-preservação. E neste momento perguntam: “Mas que raio está ele para ali a dizer?” É bastante simples, a paixão passou a ser o esforçado tesão (perdoe-me a linguagem) de encontrar alguém que corresponda aos parâmetros anunciados em qualquer cartaz ou televisão e o puro e verdadeiro amor pelo que se faz, ao inevitável pavonear na passerelle de mais um “olhem para mim”. Se Pessoa aqui estivesse, com toda a certeza escreveria uma incrivelmente triunfal ode à enormidade que se vive hoje em dia. Controlem-se meus senhores, vamos manter os pés assentes na terra, não somos nada nem ninguém, nem quando temos tudo nas mãos, é nessa altura que mais temos que lutar.

Ora bem, parte dissertação parte critica objectiva e favorável ao mais severo ataque mas avancemos. 2008 pode, como qualquer outro ano, ser o ano da viragem. Façamos figas e mergulhemos num trabalho desmesurado para marcar uma diferença, para demonstrar um pouco mais de nós, sem medo de não corresponder aos estereótipos apresentados até então, sem medo de ser um estereótipo como os apresentados até então, vamos nesta camioneta e digamos qual o nosso nome e a nossa intenção, mas definitivamente, perca-se todo o medo e o individualismo!

Como se nota ainda estou em tempo de reafirmação das prioridades de 2008, 2007 doeu imenso no peito, é necessário uma renovação de forças para se poder fazer algo de novo e de nós. A coisa mais incrível é a semelhança da nossa vida com a canção que se passeia diante dos nossos olhos, cada uma pode ilustrar-nos. Acho que o meu objectivo hoje é encontrar a minha canção e depois encontrar o meu objectivo, visto que os sonhos e as esperanças continuam a ser as mesmas, os retratos e as crenças continuam a não me deixar dormir, então venha o que está para vir.

Texto: Davide Lobão

email: davidelobao@hotmail.com

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Opinião | A Música De Sempre

Há-de-se continuar a ouvir as coisas mais deliciosas, seremos cada vez mais felizes e optimistas em relação a tudo, ficaremos cada vez mais entusiasmados com a ida a um concerto. 2008 vai ser assim. É o primeiro dia de um ciclo, o ser humano que cria, por necessidade, estes ciclos, precisa destas renovações, destas novas voltas, para acreditar que pode fazer melhor. Mas sem qualquer tipo de volta posso dizer que 2008 me deixa algo optimista, tal e qual me deixou 2007 e todos os anos que lhes antecederam, é verdade, crescemos e evoluimos dentro dos nossos casulos pequenos e demasiado quebráveis, e eles hão-de ser cada dia mais fortes, mais firmes. É dificil mantermos a música acima da cabeça, mas também é fácil estarmos cada vez mais apaixonados por ela. Quando passamos por tempos em que questionamos a existência de tudo, a permanência do mp3, do digital, da qualidade de gravação, da pertinência das bandas, da música que fazem, olhamos em redor e vemos que funciona tudo da mesma maneira só que, cada vez mais voltado ao artista. Reconheça-se, meio mundo anda com vontade de ganhar dinheiro e o artista tem cada vez mais a faca e o queijo na mão, feliz 2008? Ainda não. As discussões acerca do funcionamento das coisas, os meus monólogos são observações estéreis, inertes, mas não tem que ser sempre assim. O fazer mais vai ficar nas mãos de todos e todos partilharemos a cumplicidade de aderir e fazer existir e tudo vai ser bem sucedido em 2008. Queiram-se mais coisas e sonhe-se mais alto. Se o conseguirmos imaginar nas nossas mentes, a realizar-se, realizar-se-á.

Texto: Davide Lobão

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Opinião | As sombras monumentais

Li uma noticia há uns dias de que a indústria discográfica tinha sido ferida de morte com a iniciativa que os Radiohead tiveram aquando do lançamentodo seu novo disco, “In Rainbows”. Alguém que conheça um pouco do que tem vindo acontecer com a dita indústria percebe que há mais gente a chorar-se por não enriquecer às custas de meia dúzia de artistas que se rasgam no asfalto expondo o coração às mais duras e frias criticas de um mercado que quer ser de entretenimento. Pois o vosso tempo, dos anos dourados em que choviam milhares para alimentar a máquina que fazia de produtores e gestores milionários, acabou! Percebo no fundo o drama destas pessoas, fizeram aquilo toda a vida, no fundo deveria haver uma pequena percentagem que realmente se preocupasse com o trabalho do artista mas não sei, é como com a lei do tabaco, por uns pagam todos. Ora, como eu sou um eterno optimista (pelo menos nas alturas em que não sou pessimista), tudo isto só pode mudar! Finalmente percebeu-se que o disco é quase exclusivamente uma arma promocional (tendo em conta o preço a que se vende, óbvio) e tudo isso serve para que os concertos e os espéctaculos ao vivo sejam alimentados de uma forma mais consistente, a exposição resultará melhor, obviamente, e os artistas terão capacidade de chegar a mais gente. Não vejo o mp3 como uma tragédia mas sim como uma evolução natural. Se é bem mais acessível para um artista gravar um disco ou algumas músicas no seu pc, porque não ser depois mais acessível pôr tudo a circular? Tirem proveito disso! Não se queixem!

Queremos é ver mais bandas a sério, tanto em Portugal como pelo mundo fora.

Texto: Davide Lobão

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Opinião | Outras Histórias de Canções

É perfeitamente óbvio que hoje, no ano de 2007, vivemos cada vez mais para nós próprios. Se tivermos uma ligeira noção de arte, podemos pensar que ela subsiste dela mesma para a necessidade de expressão de outros mas do conjunto complexo da nossa humanidade. A seguir a isto trace-se uma linha para chegarmos até à música. Agora vamos imaginar um grupo de quatro pessoas que numa determinada altura inconsciente da sua adolescência, decidem formar uma banda. Agora pegue-se nessas quatro pessoas e coloque-se tudo no país que se situa na Península Ibérica e que não é Espanha. Agora pense-se no número de concertos a que fomos quando tínhamos 14 anos e os nossos pais nem sequer nos deixavam sair para além da meia-noite.

Não sei onde quero chegar com isto mas podemos continuar mais um pouco.

Vamos fazer de conta que essa loucura funcionou. A banda, ao fim de 4 anos de existência ainda consegue fazer com que todos se juntem algumas vezes por semana e marquem o concerto ocasional. Nesta altura já se preocupam com a gravação de um novo registo e com as fracas condições que oferecem quando vão tocar a algum lado. Aqui é posto à prova o amor à camisola. Juntam alguns trocos com a benevolência dos pais ou com o part-time que acompanha a frequência na faculdade: “É o futuro, a educação”, e lá se deixa menos tempo disponível para fazer alguma coisa realmente competente. Bom, a gravação arranca com um e outro conhecimento que fizeram e o custo fica consideravelmente acessível. Dão concertos na zona que sempre frequentaram e perto dos locais de diversão nocturna que os interessados por música possam procurar. Não dá em grande coisa cada actuação, uma centena de pessoas passa pelo sítio por curiosidade. No entanto acham que com algo gravado vai ser diferente, afinal é assim no mundo inteiro. “Saiu um CD novo dos americanos coisos, tocam uma cena nova, mas soa-me um bocado a isto e aquilo, mas sente-se qualquer coisa”. Pois, os nossos por cá tão neste momento atarefados em conseguir algum dinheiro para subsistirem enquanto banda, não há muito a fazer, tira-se mais um pouco de tempo à banda e vai se cumprindo o resto, para a banda há-de haver tempo depois.

É uma história que muitos podiam completar, comentar, continuar até à extinção ou até mesmo um caso de sucesso. O que nos distingue de todas as bandas que fazem sucesso pelo mundo todo desde o princípio desta brincadeira da música é que os que têm sucesso são os que acreditam realmente que estão a fazer alguma coisa importante, a transmitir uma mensagem importante. Sejam bêbados, drogados, filhos da puta do pior, não importa, quando acreditam na música que fazem mais cedo ou mais tarde tudo vem ao de cima.

Para terminar só gostaria de dizer, o músico em Portugal tem que criar, gravar, juntar, acreditar, fazer, cativar, divulgar, pagar, tocar, ensaiar, como em todo o lado. Depois disso ainda tem que sofrer os filtros da nossa tão peculiar “portuguesice” de dramas de língua em que canta, que estilo faz, que barulho se dá e em que sítio poderá tocar ao vivo. Entre algumas outras coisas mais polémicas. No fim destas contas temos 10 amigos que nunca largaram a banda porque sabem o bocado de vida que está ali investido, isto porque quanto mais oportunidades temos de ouvir e descobrir música boa que se faz cá menos as abraçamos. Vamos ao Piolho que encontramos toda a gente e depois vamos à Ribeira gastar dinheiro em copos. É cultural meus amigos, se não há hábito é por ser cultural. Até eu dou por mim a fazer tudo o que acabei de dizer e eu frequento o meio.

Não me conformo. Mais daqui a uns tempos.

Texto de Davide Lobão
Email - davidelobao@hotmail.com
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