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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

HISTÓRIAS DO ROCK NACIONAL | 6

historiasCenas dos Aqui D’El Rock, contadas pelo baterista José Serra

Há uma situação que eu posso contar porque é muito original: É de um concerto que fizemos com os UHF e os Faíscas numa discoteca de Alvalade, que há muito deixou de existir, e que dava pelo nome de “Brown’s Club”. O espaço era extremamente exíguo, não havia palco, tocávamos na própria pista onde o público se misturava com os músicos, numa enérgica interacção, que incluía tocar baixo a 4 mãos, bateria “à chapada” e muitas outras intervenções “originais”. Para contrastar, o único sítio onde ainda se ia vendo algum espaço, situava-se junto às nossas colunas de vozes, imponentes e brilhando como novas. Este estranho mistério ia sendo, progressivamente, desvendado pelos infelizes e incautos recém-chegados que, empurrados pelos espectadores já “experimentados”, descobriam rapidamente, às próprias custas, que as magníficas colunas, pintadas de fresco e de preto para a ocasião, constituíam autênticas armadilhas, adornando-lhes as vestimentas “de festa” com manchas escuras e viscosas. Tal foi o caso de uma jovem, vestida com uma imitação de pele, que entrou “leoparda” e saiu “pantera negra”.

Aristides Duarte | www.rockemportugal.blogspot.com

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

HISTÓRIAS DO ROCK NACIONAL | 5

historias450[8]Cenas dos Arte & Ofício, contadas por Sérgio Castro

Não deixa de ser curioso constatar que em 1978 o máxi -single ‘Come Hear The Band’ (um 12” em 45 RPM) vendeu 4 mil cópias num mês, foi top de vendas em Portugal (qualquer banda internacional vendia menos que nós, por essas alturas) e foi Hit Pick n.º 1 da revista americana Bilboard. Sei por outro lado que a editora dos primeiros quatro discos dos A&O, não só já não têm os direitos sobre a obra, como nem sequer sabe onde ela pára.

Sem me alongar em exposições, recordo quando tocámos na zona de Castelo Branco e nos interromperam sistematicamente o concerto com uma tômbola. Como tínhamos comido muitíssimo bem e bebido melhor, quando nos apercebemos que era tradição da terra, acabámos numa amena conversa em público com o responsável da tômbola – ele com com os seus altifalantes/corneta e nós com o sistema de PA. Algo realmente “sui generis”. Outra vez, só não recordo se foi na Guarda, na Covilhã ou noutra cidade beirã, chegamos para tocar num concerto em que também tocavam os Tantra e não havia nem palco nem promotor, só o pavilhão. Este tinha desaparecido com o dinheiro já angariado com a venda antecipada das entradas. Eu, o Fernando Nascimento e o Garcez, apanhámos o tipo escondido numa discoteca próxima e, apesar de ter sacado de pistola, o indivíduo acabou manietado e nós com a pasta da ‘pasta’. Como não havia palco, muita gente já tinha pago e havia ainda mais para assistir ao concerto, decidimos, conjuntamente com os elementos dos Tantra, levar o concerto para diante e dividir o ‘cacau’. Obviamente montamos tudo no chão e num tempo recorde. E afinal creio que o concerto nem saiu nada mal. Seguramente há muitas mais e mais divertidas.

Aristides Duarte | www.rockemportugal.blogspot.com

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

HISTÓRIAS DO ROCK NACIONAL | 4

historias450Cenas dos Ananga- Ranga, contadas por Manuel Barreto

Para mim há com certeza histórias interessantes que no entanto para o público em geral pouco ou nada significarão. No entanto levava-nos, por amor à arte, a fazer arriscadas “operações” das quais nunca mais nos vamos esquecer. Ainda a respeito do facto de os instrumentos e aparelhagens musicais serem, nos anos 70, extremamente caros; obrigava, os que queriam e teimavam em exercer a actividade, a acções que implicavam ir buscar as ferramentas necessárias ao estrangeiro o que, implicava manobras de risco e fazia de nós verdadeiros aventureiros. Acreditem ou não, arriscámo-nos várias vezes a ir dentro..

Exemplo: uma Fender Twin Reverb custaria cerca de 400 dólares nos E.U.A., que ao câmbio da altura daria por aí cerca de 15 a 20 contos. Em Portugal, poderíamos multiplicar por 4 ou 5 para saber quanto iria custar cá. Resultado: tínhamos de o trazer de fora se o quiséssemos.

Claro que a solução era tirar partido da carteira profissional de músico, e nós tínhamos (infelizmente deixou de ser importante), e ir ao estrangeiro comprar por um preço mais acessível, aproveitando por exemplo quando e se fossemos actuar para os emigrantes. Mas, depois, punha-se outro problema. As transferências bancárias não eram como hoje.

Levar dinheiro para fora do país, mais de 20 contos era proibido, o resultado era que até nas pastas de dentes o dinheiro tinha de ir “enroladinho” e depois chegado ao destino parece que estou a ver um estendal de notas a secar porque tínhamos de as lavar! Tresandavam a flúor! Espero não ir dentro por fazer esta confidência. Parece que estou a ver a cara dos empregados das lojas a contarem o dinheirinho que mais bem cheirava no mundo!

Também fizemos ida e volta a Londres numa carrinha Mercedes que não andava a mais de 50 km à hora para trazer um PA que não tinha mais de 2000 Watts, mas era o possível financeiramente.

O êxito que inegavelmente o Ananga-Ranga alcançou teve um sabor muito especial pois tivemos de, além de músicos criativos, ser malabaristas com várias manobras tipo das que descrevi anteriormente, inventando toda uma série de artimanhas para poder tornar realidade o sonho de cinco músicos.

E conseguimos.

Aristides Duarte | www.rockemportugal.blogspot.com

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

HISTÓRIAS DO ROCK NACIONAL | 3

HISTÓRIAS DO ROCK NACIONAL

Por: Aristides Duarte

Cenas Contadas Por Luís Beethoven (dos Press, Ópera Nova e FAS)

A história interessante é a dos próprios anos 80. É, no entanto, extensa e deixo para outros, melhores contadores, espaço para a relatarem. É uma forma de me descartar de vos contar alguma coisa menos própria.

Foi um período muito interessante em que as novas gerações poderão encontrar as raízes daquilo que são hoje. Bem… mas aqui vai um pequeno texto:

Uma vez, antes de um concerto, na sala do “backstage” e já depois de algumas grades de cerveja, o João Gobern e o Ramalho (Flash Gordon) resolveram desatinar. Discordavam sobre alguma crítica menos boa acerca dos Street Kids que tinha aparecido no “Se7e”, vá lá perceber-se como. O certo é que resolveram com uma cena de pugilato as suas diferenças, (estão a ver como ficámos todos lindos, para o concerto que ia começar dentro de 15 minutos). O João Carvalhais embrulhado, o Nuno Canavarro e o Zé Carvalhosa, a sair de fininho para um lugar mais calmo, o gajo do Projecto Vida todo vestido de branco, tipo anjo em cima de uma mesa, a gritar, paz...Paz... PAZ....o Chan a retirar a guitarra do caminho, o Rui Fadigas a abrir mais uma cervejola no meio do “brelaite”e o Nuno Rebelo e o Pedro Veiga a tentar acalmar as hostes. Alta confusão… Nisto entra o professor de jornalismo e diz: - Press depressa para o palco, estão lá fora 3000 pessoas aos gritos. Lá fomos, todos amarrotados, dar o nosso primeiro concerto. Foi um sucesso!!! A seguir tocou a banda de Blues do Chan, depois os Street Kids e, finalmente, as vedetas da noite (os Trovante) que tinham acabado de fazer sucesso com o tema “Menina das Sete Saias”..... O resto da história ainda não acabou, andamos todos por aí, a fazer coisas novas...Espero que este pequeno texto inspire aqueles que estão neste momento a começar a sua própria história.

Aristides Duarte | www.rockemportugal.blogspot.com

domingo, 2 de agosto de 2009

HISTÓRIAS DO ROCK NACIONAL | 2

HISTÓRIAS DO ROCK NACIONAL

Por: Aristides Duarte

Cenas de António Garcez (Pentágono, Psico, Arte & Ofício, Roxigénio, Stick)

Com o Pentágono tive dois concertos memoráveis; um em Sintra na qual Sofia Loren e Omar Sharif estiveram presentes e outro em Vilar de Mouros onde toquei no mesmo palco com Elton John. Simplesmente fenomenal.

Com os Psico há uma história em particular e relaciona-se com um concerto em Chaves aquando do nascimento do meu filho Tiago. Quando recebi a chamada anunciando o seu nascimento estávamos todos no hotel, não é necessário dizer que demos cabo do 2.º andar do mesmo. Levou-me algum tempo a pagar os prejuízos.

Com os Arte & Oficio foram imensas as loucuras, mas a mais interessante foi um concerto na Covilhã com o pavilhão totalmente cheio. Tocámos com os Tantra. O público quase me despiu e carregou-me aos ombros num desfile. Pensando nesses dias, hoje acredito que havia mais Rock nas cidades do Interior do que nas grandes cidades do Litoral.

Com os Roxigénio, desde dar uma tareia no Beto Palumbo durante a gravação do primeiro álbum, até persuadir os fãs, em Esposende, a apedrejar a GNR e quase acabar na cadeia, passando por Coimbra no Estádio da Académica despindo-me em palco não sabendo que o presidente da Câmara estava presente, passando depois por Vilar de Mouros com um grande concerto e uma invasão de palco que mais nenhuma banda teve, incluindo os U2. Grandes e inocentes tempos.

Aristides Duarte | www.rockemportugal.blogspot.com

sexta-feira, 17 de julho de 2009

HISTÓRIAS DO ROCK NACIONAL | 1

 

HISTÓRIAS DO ROCK NACIONAL

Por: Aristides Duarte

CENAS DOS PESTE & SIDA

O Agente totó

Há um episódio hilariante, passado no distrito da Guarda, de que nunca mais nos vamos esquecer: estávamos já em momento de festa e descontracção no camarim, depois duma das primeiras actuações que tínhamos feito com os novos sistemas emissor/receptor para guitarras. Aquilo para nós era um motivo de orgulho, um avanço tecnológico porreiro. Mas nisto somos confrontados com o agente que tinha comprado o espectáculo e que se negava a pagar o “cachet”. Porquê? – Porque tínhamos sido contratados para actuar ao vivo e não para fazer “playback”! Levámos mais de meia hora a explicar que, apesar de não haver cabos ligados das guitarras aos amplificadores, tínhamos tocado realmente. Mas mesmo assim, a única maneira de convencer este agente foi pedindo ao saudoso Luís Santos, nosso primeiro “roadie”, que tirasse um amplificador, uma guitarra e um sistema “wireless” da carrinha e que os voltasse a montar. Qual não foi o espanto do senhor quando, por suas próprias mãos, pode confirmar que não estávamos a mentir. E o quanto nos rimos à socapa a presenciar aquele totó, maravilhado com aquilo enquanto passava os dedos pela guitarra e ouvia o som a ser debitado à distância pelo amplificador, repetindo com os olhos esbugalhados: - Oh carago! Que coisas do carago!

Outros tempos!!!

O disco de homenagem a Zeca Afonso

A participação dos Peste & Sida no disco “Filhos da Madrugada”, homenagem a Zeca Afonso tem uma história por trás que também nunca foi contada: é incrível que os Peste & Sida só tenham sido convidados para entrar nessa colectânea à última hora, depois dos Rádio Macau desistirem. Já tínhamos registado uma versão de “A Morte Saiu à Rua” do Zeca, versão essa que incluíamos nos alinhamentos dos nossos espectáculos, com o intuito de divulgar a importância do Zeca e da sua obra às novas gerações e seria natural que se tivessem lembrado de nós mais atempadamente. Na minha opinião, essa triste situação foi da inteira responsabilidade do nosso “management” da altura, a União Lisboa, do Tó Cunha, que não me deixa saudades nenhumas. Nunca percebeu ou nunca quis perceber a verdadeira essência dos Peste & Sida (talvez por estar nos antípodas da mensagem de intervenção política que sempre fizemos questão de manter). Penso até que esse agente foi determinante na desestabilização dos Peste quando a ganância pelo dinheiro fácil falou mais alto e o filão que prometia explorar um projecto paralelo tão inócuo e trivial como os Despe lhe era muito mais cómodo. Mas a verdade é que demos a volta por cima – apesar de termos feito uma escolha muito condicionada, (porque já todas as bandas tinham apresentado os temas mais populares do Zeca para adaptar) e “O Homem da Gaita” acabou por revelar o lado lúdico e divertido do Zeca. Depois do enorme sucesso com que fomos presenteados pelo público no antigo Estádio José Alvalade, onde se realizou o espectáculo referente a essa colectânea, apesar  das declarações ambíguas de alguns artistas bastante influentes e que, por serem quem eram, foram escolhidos para promoverem a colectânea, não perdendo a oportunidade de terem mais exposição mediática (e que não se querendo comprometer explicavam que tinha alinhado só porque o Zeca tinha uma maneira muito interessante de cantar a nossa língua, mas que não conheciam sequer a sua obra aprofundadamente) não me arrependo de ter participado com os Peste & Sida nesse trabalho. Mas, também por isso, compreendo a posição dos Rádio Macau (que como os Peste, desde cedo alinharam em tocar e divulgar o Zeca, chegando mesmo a gravar uma adaptação de “Paz, Poetas e Pombas”) em se afastar deste projecto.

Depoimento de João San Payo recolhido por Aristides Duarte

Aristides Duarte | www.rockemportugal.blogspot.com

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