sexta-feira, 28 de agosto de 2009

HISTÓRIAS DO ROCK NACIONAL | 4

historias450Cenas dos Ananga- Ranga, contadas por Manuel Barreto

Para mim há com certeza histórias interessantes que no entanto para o público em geral pouco ou nada significarão. No entanto levava-nos, por amor à arte, a fazer arriscadas “operações” das quais nunca mais nos vamos esquecer. Ainda a respeito do facto de os instrumentos e aparelhagens musicais serem, nos anos 70, extremamente caros; obrigava, os que queriam e teimavam em exercer a actividade, a acções que implicavam ir buscar as ferramentas necessárias ao estrangeiro o que, implicava manobras de risco e fazia de nós verdadeiros aventureiros. Acreditem ou não, arriscámo-nos várias vezes a ir dentro..

Exemplo: uma Fender Twin Reverb custaria cerca de 400 dólares nos E.U.A., que ao câmbio da altura daria por aí cerca de 15 a 20 contos. Em Portugal, poderíamos multiplicar por 4 ou 5 para saber quanto iria custar cá. Resultado: tínhamos de o trazer de fora se o quiséssemos.

Claro que a solução era tirar partido da carteira profissional de músico, e nós tínhamos (infelizmente deixou de ser importante), e ir ao estrangeiro comprar por um preço mais acessível, aproveitando por exemplo quando e se fossemos actuar para os emigrantes. Mas, depois, punha-se outro problema. As transferências bancárias não eram como hoje.

Levar dinheiro para fora do país, mais de 20 contos era proibido, o resultado era que até nas pastas de dentes o dinheiro tinha de ir “enroladinho” e depois chegado ao destino parece que estou a ver um estendal de notas a secar porque tínhamos de as lavar! Tresandavam a flúor! Espero não ir dentro por fazer esta confidência. Parece que estou a ver a cara dos empregados das lojas a contarem o dinheirinho que mais bem cheirava no mundo!

Também fizemos ida e volta a Londres numa carrinha Mercedes que não andava a mais de 50 km à hora para trazer um PA que não tinha mais de 2000 Watts, mas era o possível financeiramente.

O êxito que inegavelmente o Ananga-Ranga alcançou teve um sabor muito especial pois tivemos de, além de músicos criativos, ser malabaristas com várias manobras tipo das que descrevi anteriormente, inventando toda uma série de artimanhas para poder tornar realidade o sonho de cinco músicos.

E conseguimos.

Aristides Duarte | www.rockemportugal.blogspot.com