terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Opinião | Outras Histórias de Canções

É perfeitamente óbvio que hoje, no ano de 2007, vivemos cada vez mais para nós próprios. Se tivermos uma ligeira noção de arte, podemos pensar que ela subsiste dela mesma para a necessidade de expressão de outros mas do conjunto complexo da nossa humanidade. A seguir a isto trace-se uma linha para chegarmos até à música. Agora vamos imaginar um grupo de quatro pessoas que numa determinada altura inconsciente da sua adolescência, decidem formar uma banda. Agora pegue-se nessas quatro pessoas e coloque-se tudo no país que se situa na Península Ibérica e que não é Espanha. Agora pense-se no número de concertos a que fomos quando tínhamos 14 anos e os nossos pais nem sequer nos deixavam sair para além da meia-noite.

Não sei onde quero chegar com isto mas podemos continuar mais um pouco.

Vamos fazer de conta que essa loucura funcionou. A banda, ao fim de 4 anos de existência ainda consegue fazer com que todos se juntem algumas vezes por semana e marquem o concerto ocasional. Nesta altura já se preocupam com a gravação de um novo registo e com as fracas condições que oferecem quando vão tocar a algum lado. Aqui é posto à prova o amor à camisola. Juntam alguns trocos com a benevolência dos pais ou com o part-time que acompanha a frequência na faculdade: “É o futuro, a educação”, e lá se deixa menos tempo disponível para fazer alguma coisa realmente competente. Bom, a gravação arranca com um e outro conhecimento que fizeram e o custo fica consideravelmente acessível. Dão concertos na zona que sempre frequentaram e perto dos locais de diversão nocturna que os interessados por música possam procurar. Não dá em grande coisa cada actuação, uma centena de pessoas passa pelo sítio por curiosidade. No entanto acham que com algo gravado vai ser diferente, afinal é assim no mundo inteiro. “Saiu um CD novo dos americanos coisos, tocam uma cena nova, mas soa-me um bocado a isto e aquilo, mas sente-se qualquer coisa”. Pois, os nossos por cá tão neste momento atarefados em conseguir algum dinheiro para subsistirem enquanto banda, não há muito a fazer, tira-se mais um pouco de tempo à banda e vai se cumprindo o resto, para a banda há-de haver tempo depois.

É uma história que muitos podiam completar, comentar, continuar até à extinção ou até mesmo um caso de sucesso. O que nos distingue de todas as bandas que fazem sucesso pelo mundo todo desde o princípio desta brincadeira da música é que os que têm sucesso são os que acreditam realmente que estão a fazer alguma coisa importante, a transmitir uma mensagem importante. Sejam bêbados, drogados, filhos da puta do pior, não importa, quando acreditam na música que fazem mais cedo ou mais tarde tudo vem ao de cima.

Para terminar só gostaria de dizer, o músico em Portugal tem que criar, gravar, juntar, acreditar, fazer, cativar, divulgar, pagar, tocar, ensaiar, como em todo o lado. Depois disso ainda tem que sofrer os filtros da nossa tão peculiar “portuguesice” de dramas de língua em que canta, que estilo faz, que barulho se dá e em que sítio poderá tocar ao vivo. Entre algumas outras coisas mais polémicas. No fim destas contas temos 10 amigos que nunca largaram a banda porque sabem o bocado de vida que está ali investido, isto porque quanto mais oportunidades temos de ouvir e descobrir música boa que se faz cá menos as abraçamos. Vamos ao Piolho que encontramos toda a gente e depois vamos à Ribeira gastar dinheiro em copos. É cultural meus amigos, se não há hábito é por ser cultural. Até eu dou por mim a fazer tudo o que acabei de dizer e eu frequento o meio.

Não me conformo. Mais daqui a uns tempos.

Texto de Davide Lobão
Email - davidelobao@hotmail.com

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