segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Na Grafonola do Marsupilami com os a Jigsaw

Os a Jigsaw são um projecto quente, que pegando nas velhas fórmulas de se fazer boa música, criam á sua própria maneira excelentes canções. “Letters From The Boatman”, o álbum de estreia da banda, é o exemplo fiel disso mesmo. As suas prestações ao vivo são ao que parece, invulgares, mas que não deixam ninguém indiferente, fazendo com que o ambiente seja de festa e boa música. O Marsupilami sentiu necessidade de saber um pouco mais sobre estes senhores e senhora, e assim sendo, fez-lhes algumas perguntas. Quanto ás respostas, podem as ler duas linhas abaixo…

Antes de mais obrigado aos a Jigsaw por aceitarem responder a algumas perguntas que vos queria fazer. Obrigado.

Quem são os a Jigsaw?

Neste momento, os a Jigsaw são três: João Rui (guitarras, banjo, harmónica e bandolim), Jorri (baixo e percussões) e o elemento mais recente a Susana Ribeiro (violino, melódica, glockenspiel e harmonium).

Quando e como é que tudo começou? Qual era o objectivo quando decidiram formar os a Jigsaw?

A única data que temos como referência é o dia 2 de Dezembro de 1999, altura em que o Jorri entrou para a formação que tínhamos na altura. Pouco depois é que escolhemos o nome da banda. Quanto ao objectivo, era simples: criar música.

Lançaram há cerca de 2 meses o vosso álbum de estreia “Letters From The Boatman”, e pelo que me dá a entender, tem sido bem aceite por parte da imprensa nacional. Como está a ser o feedback do público em geral?

O feedback do público em relação ao CD, está a ser muito, muito bom, as pessoas ficam um bocado surpreendidas, porque o nosso EP era pop rock e o single de apresentação do álbum, a música “Lion’s Eyes Louder”, é também mais directa, mais radiofónica… mas depois de ouvirem o CD mais que uma vez começam a “entranhar” o som…
Há depois o feedback em relação aos concertos que temos dado, aí o feedback é igualmente positivo, mas no início as pessoas estranham, principalmente quem conhece o álbum, porque vê 3 pessoas num palco, com uma constituição em relação aos instrumentos, um bocado fora do vulgar… mas no fim já entrou dentro do espírito das músicas.

Que querem transmitir a quem vos ouve, com este álbum?

Com este álbum, e após o EP “From Underskin – 2004” há um conceito muito forte subjacente a todo o trabalho da banda. Para se dizer em poucas palavras do que trata, basta trautear o refrão da música que dá o título ao álbum: “letters from the boatman, that i have kept”.
Cada música é uma carta que o Barqueiro escreveu e que os a Jigsaw guardaram. Mas não é um barqueiro vulgar: é verdade que ele atravessa almas no rio mas também não é a estátua inabalável de que se tem ideia: é um Barqueiro um pouco mais humano – ou demasiado humano, com dúvidas, sonhos e remorsos. Isto ao nível lírico.
Em termos sonoros, o álbum exprime duas faces da banda. A primeira em que se nota as influências de um rock mais antigo, ainda próximo do folk e dos blues, sem no entanto soar como se fora gravado na altura em que este tipo de som nasceu. Na outra face, revelam músicas com um cariz mais simples e intimista, onde a guitarra acústica é o timoneiro.
Enfim, acho que queremos apenas transmitir esta música: a música…

Tenho reparado que Coimbra está bastante activa a nível musical (pelo menos). Coimbra é realmente uma cidade inspiradora? Para além da cidade, onde vão os a Jigsaw buscar a inspiração para a vossa música?

A cidade acaba por ser inspiradora no sentido em que há uma grande afluência de pessoas de fora, por causa da Universidade. Aliás, só uma das pessoas da banda é de facto nativa, o resto da banda não é propriamente da cidade. E talvez seja esta convergência de pessoas o que leve à criação de tantas bandas. Tem também outros atributos de renome como a rádio RUC e o programa Santos da Casa do Nuno Ávila e Fausto Silva, dedicado à promoção de bandas nacionais, que é dos mais antigos da rádio que desde o princípio nos apoiou. Agora onde vamos nós buscar inspiração… a tudo, a nada, Tom Waits, Nick Cave, Johnny Cash, Rimbaud, Pessoa, Howe Gelb.

Estão neste momento na fase da divulgação do vosso trabalho. Concordam que esta é das fases mais complicadas de uma banda? E têm tido dificuldades nesse campo?

Sim, claro que concordamos, o trabalho não é fácil, mas nós com os meios que temos à nossa disposição trabalhamos por fazer o melhor. Em relação a ser complicado para todas as bandas, acho que muitas bandas não encaram esta fase com o profissionalismo, ou melhor com a seriedade que ela tem que ter, e no futuro as bandas têm que começar a dar esse trabalho a quem é profissional da área, sejam promotores, assessores de imprensa, free lancers, etc… cada vez mais a música tem que ser profissionalizada, o músico tem que cada vez tocar melhor e dedicar-se mais a isso e deixar as outras coisas para quem faz isso melhor, seja o management, o booking, etc.

Cada vez mais a net é um aliado poderoso nesse campo. Concordam com esta afirmação? E qual a vossa opinião em relação à música vs net que se vive hoje em dia?

Sim a net veio ajudar a divulgar as bandas, principalmente as bandas que não optam pela estrutura que eu referi anteriormente… A net veio aproximar mais as bandas que não têm editora, as denominadas bandas de garagem… mas não concordo que haja algum tipo de guerra, simplesmente acho que o mercado ainda se está a adaptar a todas as novas tecnologias.

Acham que era possível os a Jigsaw lançarem um álbum totalmente gratuito via net?

Sim, perfeitamente possível. A pergunta é pertinente porque vem no seguimento da edição do album dos Radiohead gratuitamente, agora a resposta é mais complicada, portanto, no seguimento da primeira resposta: sim é possível mas não um album nos termos deste que acabamos de editar. Nós enquanto fãs de música gostamos do objecto em si, dos vinis, dos digipacks, portanto ter apenas o album em formato digital era algo que francamente nos ia desiludir. Já o que seria possível era a edição de um album via net, mas um que fosse específicamente para esse efeito, de versões diferentes, ou ao vivo. E para terminar, essa edição dos Radiohead resulta na perfeição devido à dimensão que eles já têm. O facto deles distribuirem o album gratuito é noticia de jornais. Se fosse uma banda indie como nós a fazê-lo seria uma curiosidade de rodapé.

Acham que existem locais, tanto em qualidade como em quantidade, quer em Coimbra, que no resto do país em geral, para uma banda como os a Jigsaw se mostrar ao vivo?

Em Coimbra há no momento uma grande falta de espaços de qualidade e quantidade, mas no resto do país existe já um circuito curioso para se mostrar ao vivo o trabalho de bandas como nós. Claro que ainda há muito a fazer neste sentido de modo a criar o hábito nas pessoas de sairem para ver concertos.

Que acham do actual panorama musical português?

No momento atravessamos um bom momento no que diz respeito à criação de música. Temos aí o Sérgio Godinho que lançou no ano passado um album fantástico, o Jorge Palma que tem agora o maior sucesso da carreira dele, e ora lá está, Coimbra: temos o Legendary Tigerman e os Wraygunn com material novo, os Bunny Ranch, o JP Simões e o Sean Ryley & The Slowriders também em estreia.

E do estado geral do nosso país?

Nem comentamos.

Quais os próximos passos dos a Jigsaw?

Neste momento e até ao final do ano, o objectivo é continuar a dar estes pequenos concertos, que servem para as pessoas nos conhecerem, mas principalmente para nós enquanto músicos e banda, vermos o que está mal, o que funciona bem e o que funciona mal, reacção do público ás novas músicas… e continuar também a promover o álbum nos media, rádios, jornais, tv, tanto nacionais, como locais e regionais, porque achamos que é uma ferramenta muito importante para não a usarmos.
Para o ano, e tendo em conta que o álbum vai ser editado na Alemanha, Áustria e Suiça, vamos começar a nossa internacionalização, que vai ser um grande objectivo que começa no próximo ano, mas que vai ser um objectivo a médio longo prazo, ou seja preparar as coisas, tanto em Portugal, como lá fora, para depois vir um álbum novo, talvez em 2009.

E uma última pergunta, qual a personagem de banda desenhada preferida?

João Rui – Avô Metralha
Jorri – Wolverine
Susana Ribeiro – Super Pateta

Curiosidades:

Porquê o nome a Jigsaw?

Na altura em que escolhemos o nome da banda uma das nossas grandes influências era e é a banda belga dEUS. Portanto, como eles roubaram o nome de uma música das Sugarcubes (Bjork) nós roubámos de uma música dos dEUS (Jigsaw you, do álbum Worst Case Scenario)

A formação foi sempre a mesma?

Já teve diversas formações:
Tudo começou com o João Rui, Jorri, Filipe Castilho e Gonçalo, na formação típica de voz, 2 guitarras, baixo e bateria, mas depois a banda foi sofrendo várias alterações. Quando gravamos o EP, já tínhamos o Cardoso em vez do Gonçalo na guitarra, e mais tarde quando parámos para compor este álbum “Letters From The Boatman”, o Filipe tinha acabado de sair, ficando a banda reduzida a um trio, 2 guitarras, voz e baixo…
Todas as mudanças na formação foram muito importante no caminho que a banda foi tomando, tanto em termos de encarar cada vez as coisas com mais seriedade, como foi amadurecendo o seu estilo musical, e isso nota-se bastante neste álbum, principalmente quando o comparamos com o EP que editamos em 2004…
Por fim e já depois do álbum estar gravado, o Cardoso por várias razões decidiu deixar a banda, que ficou momentaneamente reduzida a dois dos elementos da sua formação de 1999, mas por pouco tempo, porque já nessa altura a Susana Ribeiro, que tinha sido um dos convidados para o álbum, vinha regularmente ensaiar connosco e de forma natural passou a fazer parte da banda, que assim se tornou novamente um trio.

Influências?

Fora as que já mencionámos, mas há sempre espaço para falar do Leonard Cohen, Andrew Bird, Iron & Wine, M. Ward, Pavement.

Bandas nacionais que têm ouvido?

Fora as que já mencionámos, Born a lion, Mazgani, Norton, Norberto Lobo, Electric Willow, Peixe-Avião, e muitas outras.

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