quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Na Grafonola do Marsupilami | TrYangle

Através de um amigo, cheguei até uma banda que de alguma forma me fez sorrir, mais uma vez. Ouve-se muita coisa, mas poucas são as bandas que nos fazem esboçar um sorriso de contentamento, de alegria, por ter ali, algo que nos faz recordar o porquê de se continuar a ouvir música e de continuar a procurar sempre, coisas novas. Essa banda chama-se TrYangle e disponibilizaram recentemente, no respectivo Myspace, três das seis músicas que compõem o EP de estreia da banda [podem ler a critica, ao referido EP, na secção criticas da HEADZUM.ORG] a lançar - ou mostrar, como preferirem - brevemente. Fiquei curioso, quis saber mais sobre estes três rapazes e fiz uma viagem (virtual) até à Povoa de Varzim.

1 Quem são os Tryangle?

Nuno: O bom, o mau e o vilão.

Ricardo: 3 amigos que gostam muito de música.

Gonçalo: O vilão, o mau e o bom; O vilão, o bom e o mau; O mau, o bom e o bom também; Os amigos que gostam de música. É só escolher.

Quando e como surgiu a necessidade, se lhe poderei chamar assim, de criar este projecto?

Nuno: Creio ter sido um conjunto de factores. Esta formação já vem de outra formação e essa outra vem de uma outra e por aí fora. No entanto, já passada a primeira fase da rebeldia em que éramos contra tudo e contra todos, ouvíamos música rebelde de uma forma rebelde, vestíamo-nos de forma rebelde, enfim, a intenção era a afirmação. Isso mudou em nós, tanto como pessoas, como na banda. Os TrYangle surgiram numa fase de transição para um caminho mais maduro em que a música já nos estava entranhada, já não era rebeldia, era algo mais. Desde então que a vontade de tocar se instalou, é o que temos feito ao longo destes últimos anos e é bastante divertido e libertador.

Pelo que sei, estão prestes a lançar o vosso primeiro trabalho. Podem falar um pouco do que aí vem?

Ricardo: É um E.P. composto por 6 temas que variam muito entre si.

Nuno: Na verdade, não deu lá muito trabalho, mas que obtivemos um bom produto final, lá isso obtivemos. Este trabalho faz parte da vontade de seguir em frente, de querer algo mais. Este espírito musical já acompanha o grupo há cerca de 8 anos e, naturalmente, chegou a hora de apostar em algo mais conciso. Este trabalho, como lhe chamas, é uma aposta nas músicas que achamos, entre todos, serem as melhores para ficarem juntas nesta gravação, e quem sabe, serem um grande trunfo para o futuro.

Gonçalo: Só queria corrigir uma coisa: lançar? Gostaríamos muito de o fazer, mas nada garante que conseguiremos lançar estas seis músicas. Garantimos, isso sim, que vamos tentar mostrar esta gravação ao maior número de pessoas certas.

Existe alguma ideia ou mensagem que querem transmitir com este trabalho?

Nuno: Como um todo, a única ideia que queremos transmitir é a de que nos divertimos muito a tocar, tanto entre nós, como com outras bandas. Quanto às lyrics, talk to the main man.

Gonçalo: Não existe nenhuma mensagem subliminar que ligue as letras entre si. Essencialmente, falam sobre sentimentos e são pessoais, logo, muito pouco unificadoras. Conclusão fácil: nenhuma delas fala sobre Guantanamo.

3 Onde se inspiram os Tryangle?

Ricardo: Em tudo.

Gonçalo: Nas fontes…

Nuno: Os TrYangle são um Uno vindo de três pessoas diferentes, é importante ter isso em conta. Apesar de termos gostos musicais parecidos, somos pessoas muito diferentes em todos os aspectos. A mim o que me inspira é a música, é o silêncio, as outras pessoas, o vinho, a cerveja e os tremoços, o mar, as coisas más, as coisas boas, a família, a namorada, os amigos, por aí fora.

Podem nos dar uma ideia de como funciona o vosso processo criativo? Há uma fórmula, ou as músicas surgem de forma natural?

Ricardo: Não existe propriamente uma fórmula… Existe sempre uma ideia, que surge de qualquer um dos 3. E, a partir daí, tentamos esculpir a mesma até atingirmos um resultado final.

Nuno: Por acaso, até há uma fórmula: 2 copos de farinha, um baixo, 1 copo de açúcar, uma guitarra, 1 garrafa de maduro tinto, uma bateria, uma pitada de sal e a voz. No fim, mistura-se tudo - pode ser à mão que é para ser um trabalho mais personalizado - e voilá: temos os TrYangle a fazer músicas (é de ter em conta que a cozinha tem que ser pequena para que os ingredientes possam fundir-se muito bem).

A seguir ao lançamento, vem a promoção do vosso trabalho, talvez a parte mais complicada. Já pensaram nos meios e formas de como a querem fazer? E, concordam que é uma etapa complicada?

Ricardo: Pergunta difícil…

Nuno: Na verdade, ainda não estamos muito preocupados com isso. Numa primeira fase, o mais importante é arranjar uma maneira da nossa música chegar às pessoas e isso é aquilo que nós podemos fazer: divulgar. Mais para a frente, o ideal seria arranjar uma promotora e uma editora para nos podermos lançar à estrada e entrar num ritmo mais elevado. Na realidade, estamos cansados de jogar na liga de honra e queremos passar para a 1ª divisão.

Gonçalo: Ou seja, de água para cerveja.

Qual a vossa opinião em relação à importância que a net tem tido sobre a música e toda a “confusão” inerente a isso? Acham que poderá trazer mais vantagens ou mais desvantagens para uma banda como os Tryangle?

Nuno: Os tempos mudaram e as mentalidades têm de se adaptar às novas realidades. É verdade que a indústria discográfica sofreu um grande impacto com o aparecimento do download, mas também é verdade que, para a grande maioria das bandas, não foi isso que lhes deixou as carteiras mais leves. A grande maioria das bandas não ganha dinheiro a vender álbuns, mas sim na estrada. Nos dias de hoje, creio que os artistas têm que se adaptar e arranjar maneiras de usar a Internet e o download como um aliado, ao invés de um inimigo.

Como está servida a vossa terra (Póvoa do Varzim), em relação a espaços ou iniciativas para uma banda como os Tryangle se apresentarem ao vivo?

Nuno: Nada, niente, kapute! A Póvoa de Varzim é uma cidade turística. É deserta durante a maior parte do ano e absurdamente sobrelotada no Verão. Vive muito às custas de um público muito mainstream e todo o negócio da noite e de bares gira à volta desse público. Oxalá alguém, algum dia criasse um “Hardclub” na Póvoa, isso é que era. Na verdade, temos um espectáculo agendado para dia 27 de Dezembro no auditório municipal da Póvoa de Varzim e é um dos poucos sítios em que, em conjunto com a Casa da Juventude local, se pode realmente criar algo.

4 Qual a vossa opinião em relação ao actual panorama musical português?

Ricardo: Está bem melhor do que há anos atrás, sem dúvida…

Nuno: O panorama musical português não está nada mal servido. Temos aí bandas muito boas, ao nível das bandas estrangeiras. Fazendo uma análise superficial, há artistas aí que metem dó, mas há outros que têm vindo a provar que querem e estão a fazer um bom trabalho. Agora, sítios para tocar e entidades a apostar em força nos nossos artistas é que não se vê.

E, em relação ao estado geral do país?

Nuno: Muito orgulho em ser português, mas a verdade é que este País vive das glórias do passado, desde o tempo dos descobrimentos. Também do futebol, mas isso é geral. Acho que está na hora das pessoas arregaçarem as mangas e sujarem as mãos a trabalhar, é a única maneira de se criar riqueza num país.

Gonçalo: Em relação ao estado geral do país, acho que está tudo muito bem. Sim. De acrescentar, igualmente, que adorei responder a esta pergunta.

E agora, com o EP pronto a ser editado, quais os próximos passos dos Tryangle?

Nuno: Bem, primeiro temos que tratar de arranjar maneira para editar o “EP”. Depois disso, estamos dispostos a tudo (salvo seja). Adoraríamos quebrar fronteiras e lançarmo-nos á Europa. Há que perder o medo e assumir a vontade de que queremos muito fazer isso, mas aquilo que nos compete é fazer música e trabalhar de modo a criar as oportunidades, para que, quem sabe, isso se torne possível um dia.

Ricardo: É, não sabemos se o E.P. será editado ou não, estamos a estudar neste momento várias oportunidades… Mas o próximo passo será promover as músicas ao vivo o mais possível.

Última pergunta: qual é a vossa personagem preferida de banda desenhada?

Nuno: Fritz, the cat.

Ricardo: Corto Maltese.

Gonçalo: Patinhas, O Tio.

5 Curiosidades:

Como surgiu o nome da banda, Tryangle?

Nuno: Gostamos muito de geometria.

Ricardo: Entre vários nomes, surgiu este e foi o que o pessoal mais gostou… Talvez devido aos multi-significados que a palavra poderá representar.

Um concerto (vosso), que de alguma forma vos tenha marcado?

Nuno: Gostei de todos, mas não me lembro de nenhum deles em concreto. É bom sinal.

Ricardo: Barco Rock Fest, por ter sido o pior de sempre.

Influências?

Gonçalo: Influências, influências… Fontes de inspiração! Isto é estilo aquele jogo dos sinónimos, estou a gostar.

Nuno: Maduro tinto douro ou alentejano; bandas fixes como os Black Sabbath, Led Zeppelin, Nirvana, Beatles; mulheres!

Ricardo: King Crimson, Soundgarden, Meshuggah.

Bandas nacionais que têm ouvido?

Nuno: Old Jerusalem, Linda Martini.

Ricardo: Júlio Pereira, José Afonso, Maria João e Mário Laginha.

Gonçalo: TrYangle.

Myspace dos TrYangle

(Esta entrevista faz parte integrante da edição de Novembro da webzine HEADZUM.ORG)

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