terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Na Grafonola do Marsupilami | Ashes

Hoje, volto à conversa! É a primeira de 2008, e desta feita fui até Tomar. Os convidados são os Ashes, banda local, ainda que cada elemento venha de um local diferente deste nosso pequeno país. Essa diversidade cultural acaba por ser aproveitada de uma forma positiva, e prova disso é o mais recente trabalho da banda, o EP homónimo lançado em Outubro de 2007 que tem suscitado algumas boas criticas. O Marsupilami quis saber um pouco mais sobre estes senhores, e fez-lhes algumas perguntas. As respostas podem as ler, duas linhas abaixo...
Antes de mais obrigado aos Ashes por aceitarem responder a algumas perguntas que vos queria fazer. Obrigado.

Marsupilami (M) - Quem são os Ashes?

Ricardo Neto (RN) – Somos nós!

Pedro Caldeira (PC) – Aprofundando um pouco, somos um grupo de amigos que tem um gosto comum: criar música em conjunto e executá-la ao vivo, e divertirmo-nos a fazê-lo.

Marco Rosa (MR) – Reforçando a resposta do Caldeira, gostamos também de divertir o público que nos vê/ouve. Cada elemento da banda tem gostos e influências musicais distintas, mas encontramo-nos todos no nosso mundinho chamado Ashes.

Eduardo Serraventoso (ES) - Se bem que também fazemos outras coisas juntos como… beber copos, jogar futebol, etc.

David Pais (DP) – Eu diria que somos um pouco mais do que isso, hehe! Ashes é, no fundo, um colectivo de músicos e acima de tudo amigos que adoram a Música pelo que ela é, e tentam criar algo de novo no meio de tanta música igual que há por esse mundo fora... Nunca ficamos propriamente satisfeitos por criar temas, temos sempre de aprimorar ao máximo e isso dá-nos um gozo especial que se nota quando os tocamos ao vivo!

M - Quando e como é que tudo começou? Qual era o objectivo quando decidiram formar os Ashes?

PC – Os Ashes surgiram em algumas conversas que putos da terrinha têm quando não há muito para fazer. Nem tocávamos praticamente mas decidimos reunir-nos para experimentar e ver o que dava simplesmente porque parecia ser uma coisa divertida para fazer.

ES – Se bem que a mim “obrigaram-me” na altura a tocar bateria com um pedal de bombo que tinha uma bola de ténis…

PC - Pois… ossos do oficio! E depois tivemos o bom senso de te passar para a guitarra. (risos) Mas continuando, pouco depois de começarmos, vimos que tínhamos descoberto uma maneira de viver que iria trazer muitos bons momentos.

MR – Não posso responder bem a esta questão pois não presenciei o início, talvez porém um reinício. Nessa altura, quando me convidaram para me juntar, tinha o violino guardado numa gaveta há cerca de 4 anos, pois tinha tido lições de violino e alcançado o 5ºgrau do instrumento até aos 14. Aos 18, idade em que entrei na banda, vi a oportunidade de voltar a mandar umas arcadas (risos), mas desta vez num género sonoro com o qual mais me identificava.

M – Sei que já ganharam alguns concursos de música moderna, o último ainda este ano (em Junho, se não me engano). Até que ponto isso vos tem ajudado, quer monetariamente, quer “emocionalmente”?

PC – Bem, monetariamente ajudou-nos a produzir e iniciar a divulgação do nosso EP, o que já foi muito bom.
“Emocionalmente” é óptimo, ainda por cima sendo numa sequência de vitórias. É claro que nos motiva a continuar o nosso trabalho, a lutar por ele, e tentar chegar mais além.

ES – Parece que nos chamam o terror dos concursos agora.

DP – Sim, e isso por um lado deixa-nos um bocado nervosos, porque nos deixa um pouco mal habituados! Mesmo assim, todos sabemos que, por mais mérito que possamos merecer, também temos tido um pouco de sorte em ter conseguido ganhar sempre. Alguns amigos dizem-nos que não é mera sorte nem mérito, e que Ashes tem realmente algo de novo que faz com que as pessoas se identifiquem um pouco com os nossos temas e a nossa presença em palco. Temos recebido excelentes críticas tanto a nível de actuações como em relação ao EP...enfim! Só quando formos tocar a um SuperBock SuperRock ou assim é que nos podemos dar por satisfeitos e ainda mais motivados para ir à conquista do mundo! (risos)

M – Lançaram à pouco mais de um mês o vosso EP de estreia. Como está a ser o feedback a esse mesmo EP?

ES – Está a ser bastante positivo, se bem que mesmo quando é mais negativo serve sempre para evoluirmos musicalmente.

PC - Sim, concordo. Mas em geral está a ser bem aceite, quer por quem já acompanhava a banda a algum tempo como quem não nos conhecia muito bem, e isso é muito bom.

DP – Bom, dentro das condições em que o gravámos, penso que não poderia estar muito melhor! Foi completamente auto-gravado e produzido, o que nos deu imenso trabalho... ainda para mais visto sermos seis membros, e todos com personalidades fortes e gostos muito vincados! Uns queriam as guitarras assim, outros queriam a bateria assado, e outros ainda queriam a voz mais baixa! Mas enfim, cá nos entendemos, e temos recebido um bom feedback do nosso trabalho.

MR – Pois, em geral está a ser bem aceite, críticas não tão positivas só ouvi a nível de edição, não a nível de ideias musicais, o que é muito bom, pois a gravação foi completamente caseira. O nosso objectivo (mostrar a nossa alma musical) acho que foi bem alcançado.

M – Que querem transmitir a quem vos ouve, com este EP?

RN – Nós transmitimos…

ES – Momentos musicais, e com eles criar emoções variadas.

Ricardo Ferreira (RF) – Serenidade e destruição!

DP – Queremos transmitir aquilo que sentimos, quer em relação ao Mundo como ele é, como ao Mundo que deveria ser. Por exemplo, eu tenho uma visão algo apocalíptica da realidade em que estamos inseridos, e transmitimo-lo um pouco na nossa música. E um dos nossos objectivos, para além de agradar o sentido auditivo a quem nos ouve (risos), é também fazê-los parar e pensar um pouco sobre o Eu e o Mundo.

MR – A quem nos ouve queremos transmitir o nosso mundinho... e com ele introspecções frustradas e superadas, alegrias e tristezas, ouçam…

PC – Simplesmente ouçam-no e sintam-no à vossa maneira.

M – Onde vão buscar a vossa inspiração, para a criação do vosso som?

RF e MR – À vida!

PC – Realmente penso que a inspiração resulta de experiências que tens ao longo da tua vida. Por exemplo, sofres um revés qualquer, e daí pode sair uma música mais introspectiva e melancólica, como noutro dia tudo te parece correr bem e compões algo alegre e motivador.

RN - Eu cá é aos meus transformers… (troca de olhares)

ES – E nos ensaios é a toques de bola bastante amadores…

DP – Concordo com os transformers e os jogos de futebol, visto que tudo isto são acasos e não-acasos da realidade em que estamos inseridos, e tudo isto, invariavalmente do seu resultado e pesar na vida de cada um, inspira-nos a criar. No meu caso específico, tudo me inspira. Desde os momentos maus aos bons, desde a mosca que voa e pousa na janela à chuva que cai lá fora.

M – Estão neste momento na fase da divulgação do vosso trabalho. Como está a decorrer a divulgação do vosso trabalho? Acham ser uma das fases mais complicadas de uma banda?

MR – Não diria complicada…

PC - Diria antes trabalhosa!

ES – Sim, é complicada a fase de concepção dos EP, porque de resto até se vende bem! (risos)

DP – Concordo aqui com o Caldeira...é uma fase bastante trabalhosa, e que esperamos dar cartas e abrir-nos portas! Já estamos a tentar fazer com que nos ouçam por todo o mundo, e esperamos algum dia conseguir pisar palcos internacionais e abrir para bandas que todos adoramos! Queremos tournés!! Isto para que o Ricardo Neto possa jogar futebol com outros bateristas, claro! (risos)

M – Cada vez mais a net é um aliado poderoso nesse campo. Concordam com esta afirmação? E qual a vossa opinião em relação à música vs net que se vive hoje em dia?

PC – Penso que sim. Para bandas de pequena envergadura, num meio mais underground, então é capaz de ser o maior aliado na divulgação.
Mas até em planos mais altos já se começa a ver que a Internet vai mudar muita coisa em termos de divulgação de música.

DP – A Internet é uma faca de dois gumes, percebes? Porque por um lado tens um vasto poder de divulgação à tua disposição, mas por outro perdes-te na imensidão de quem a utiliza para esse mesmo efeito...é um pouco contraditório, mas sim...são tempos deveras diferentes dos que eram antigamente, em que os managers íam aos locais de ensaio ver as bandas, e estavam presentes nos concertos. Agora é tudo muito mais remoto, o que, em parte, tira muita da piada ao processo de escolha. Por exemplo, antigamente uma banda lançava um álbum, toda a gente comprava! Hoje em dia, uma banda lança um álbum, toda a gente “saca”! A Net é mesmo uma faca de dois gumes... por um lado é prejudicial, por outro é extremamente vantajosa.

MR – Concordo com o David. Hoje em dia, a net é um meio essencial para divulgação do que quer que seja. E o mundo da música lucrou e muito com isso. No entanto, surge um novo problema, à pala da net e da obtenção mais rápida e mais barata de música que em qualquer outro lugar, o público começa a preferir ter mais e com menos qualidade, e progressivamente a ser menos exigente a nível de fidelidade musical. Com isto, a sobrevivência dos CDs e qualidade de som associada a ele, está a pouco e pouco a ser cada vez mais difícil. A Net é mesmo, como o David diz , uma faca de dois gumes

M – Acham possível os Ashes lançarem um álbum totalmente gratuito via net?

RF – Hum... nunca se sabe, depende do futuro.

RN - Mas o que é que andam a fumar?

ES – Acho possível, mas impossível nos passar pela cabeça!

PC – Em termos de difusão pode ser bom, mas não penso que fique bem uma pessoa dar de bandeja o seu trabalho, até parece um pouco desvalorizador. E de qualquer maneira não somos ricos, temos de pagar as contas… Penso que neste EP tomámos uma boa opção ao estipular um preço bastante acessível.

DP – Tenho de concordar. Não diria que o fizéssemos com um longa-duração, mas talvez um EP-single ou algo do género...isso ainda se poderia colocar em questão. São tempos difíceis, principalmente no nosso país, e eu sei bem o que é perder dinheiro à custa da Música... (risos)

MR – Gratuito gratuito, não sei, mas se for do género, compras um telemóvel recebes o CD em MP3’s, tipo os Clã (risos). Mas ainda assim… não, não me agrada, pois a ideia de divulgar o nosso som através de MP3’s fica-me um bocadinho aquém. Pá não gosto de MP3’s e pronto (risos).

PC – Ah, o belo do Vinil… Mas sei de pessoas que sem MP3’s ficavam sem som para ouvir… ou não nos ouviam a nós ou a outras bandas da nossa onda. (piscar de olho)

M – Acham que existem locais, tanto em qualidade como em quantidade, no país em geral, para uma banda como os Ashes se mostrar ao vivo?

RN – Às vezes parecem-me poucos ou nenhuns.

RF- Sim, podia haver mais.

MR - Ou melhor, os espaços a aproveitar até os há, falta um pouco mais de iniciativas e apoios.

ES - Mas está bastante melhor do que há uns anos atrás, esperemos que continue a tendência.

DP – Há tanto sítio para tocar e tão pouco dinheiro e iniciativa para pagar às bandas e equipas de som e etc...! Esse é que é o problema!

M – Que acham do actual panorama musical português?

RN – No meio underground, é bastante bom.

ES – Sim, nisso também se notou uma grande melhoria nos últimos tempos, e que continue assim pois ficamos todos a ganhar.

RF – Sim, o som que se faz no meio underground acaba por ter facetas muito boas, e devia ser mais divulgado nos meios mais conceituados e comerciais.

PC - Pois, tem de ser, senão vamos continuar a ouvir os mesmos (e poucos) nomes durante anos a fio.

DP – Odeio o nosso mainstream governado pelos “velhos do restelo”, adoro o nosso underground governado por impulsionadores. Ditto!

MR – Eu cá sou completamente a favor da frase: “O que é nacional é bom”. Só falta é mais divulgação. Respondo à pergunta? Acho que sim.

M – E do estado geral do nosso país?

ES – Sem comentários, tenho medo de represálias!

PC – Para ser sincero não acho que seja do pior. Na verdade gosto muito de Portugal. Realmente podia-se melhorar certas atitudes e situações, mas isso depende de todos nós. Penso que muitas pessoas passam demasiado tempo a dizer mal em vez de fazer algo para melhor efectivamente a situação do país.

MR – Pá, eu também gosto muito de Portugal, é o Paraíso na Terra (he he), mas isto anda uma republica de bananas completa, é a desorganização total…e a tendência, pelos vistos, é para piorar, a ver vamos como dizia o outro… Mas sem dúvidas que há muitos que falam, falam, falam…e não dizem nada

D – Os políticos perdem tempo demais a reparar nas gravatas dos outros. Mas esse é o problema do Português, quer sempre estar melhor do que o outro. Enquanto os nossos políticos tiverem dinheiro, vai tudo continuar na miséria. Eu sou a favor de uma nova revolução! Mesmo que tenha sangue, avante com isso! Estou doente e envergonhado por ser Português.

PC – Bom, podíamos ficar aqui o dia todo a discutir o estado do nosso país…

M – Quais os próximos passos dos Ashes?

ES – Um à frente do outro, até ao topo.

PC – Bem, não sei o que será o topo... digamos o mais longe possível. Gostava de chegar a cota e ainda se lembrarem de nós e da nossa música.

DP – Conquistar o mundo!!! Pronto, já disse!! (risos)

MR – Mais ensaios, mais concertos, mais músicas, mais curtição (acima de tudo), acreditar sempre.

M – E uma última pergunta, qual a vossa personagem de banda desenhada preferida?

ES – Zé Carioca.

RF – Não é bem banda desenhada… mas curtia o Tom Sawyer.

RN - Chico Bento.

PC – Em puto adorava o Tio Patinhas... deve ser por isso que estou a tratar da contabilidade da banda (olhar trocista)

DP – V.

MR – Calvin, do Calvin & Hobbes.

Curiosidades:

M - Porquê o nome a Ashes?

PC – Originalmente surgiu como substituto temporário ao nome da altura, e acabou por derivar para Ashes Rain, devido à força que uma simples chuva de cinzas pode ter.
Nós em Tomar sabemos bem o que estas representam no verão na altura dos incêndios, mas se quiserem ir por outra perspectiva podem por exemplo ver A Lista de Shindler e percebem a ideia.
Enfim, para terminar, optámos por voltar a Ashes por uma questão de estética e dicção, era mais fácil de memorizar e pronunciar.

ES - Mesmo assim há quem não acerte.

M - A formação foi sempre a mesma?

RN – Não.

PC - Da formação inicial já só sobram os guitarristas. Já tivemos outro baterista, outro baixista, e outro vocalista.

RF - E o violino só entrou há uns anos.

DP – Eu entrei em 2004 como vocalista, e estou-lhes imensamente grato por todo o trabalho e momentos únicos que temos tido juntos!

M - Influências?

DP – Tudo o que vive e respira.

PC - Ui, tantas! Praticamente todo o tipo de musica. Entre nós devemos ouvir de tudo, da música clássica ao grunge, do metal ao som ambiental, etc. É uma completa amálgama de sons que se reúnem na nossa música às vezes nem sei bem como…

MR – Sim, tudo e mais alguma coisa…até trance psicadélico (risos)

M - Bandas nacionais que têm ouvido?

RF – Dazkarieh.

RN – Passe a publicidade, Underneath (he he)

PC – Para além das de amigos nossos que podem ver no nosso myspace, das novidades diria principalmente Linda Martini, e um bocadito de Madcab, e das mais consolidadas os Primitive Reason.

DP – Ramp, Oblique Rain e Donna Maria.

MR – Xtigma (he he), Khopat, Kalashnikov, Moonspell, e Wako.

ES – Desde Primitive Reason a Ramp, e Linda Martini também.

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