segunda-feira, 14 de abril de 2008

Na Grafonola do Marsupilami | Bildmeister

Os senhores que se seguem são de Vila do Conde e têm já um percurso musical de relevo. Acima de tudo eles gostam de fazer música, m as com uma condição: fazer somente aquilo que lhes dá prazer. Com cerca de 11 anos de existência, estão prestes a lançar o novo álbum da banda, intitulado “Model FC 840”. O Marsupilami, quis saber algo mais sobre os Bildmeister, e por isso mesmo esteve à conversa com o Hugo, num café da cidade do Porto, algumas horas antes do filme concerto que deram nessa noite em Passos Manuel, conversa essa que podem ler duas linhas abaixo.

Antes de mais, obrigado aos Bildmeister e em particular ao Hugo, por aceitarem responder a algumas perguntas que vos queria fazer.

Bildmeister3Quem são os Bildmeister?

Os Bildmeister são o Hugo e o Gil, que são irmãos, o Nuno e o João.

Quando e como é que tudo começou?

Nós começamos a tocar relativamente novos, com cerca de 14 anos, e tivemos uma primeira banda chamada Pinheads e uma outra chamada Bellybutton. Nessa altura éramos uma banda de versões, muito influenciada pelos Ramones. A partir de certa altura decidimos: vamos criar aqui a nossa cena, uma coisa original, com conceito, e começamos então acerca de 11 anos atrás com o nome Bildmeister. Passamos os primeiros cinco anos a descobrir-nos, a tentar perceber aquilo que queríamos fazer musicalmente, esteticamente, a todos os níveis. Por volta de 2002, recebemos um convite da Bor Land para incluir um tema nosso numa colectânea - quando também eles estavam a começar - e gravamos então o tema “I Only Stop To Start Again”. A partir dessa altura fomos crescendo, e ainda em 2002 lançamos o álbum “Explay”, que correu muito bem, com muitos concertos e muita divulgação. Nestes últimos dois anos, temos andado um bocado a cumprir os mínimos e à espera de lançarmos um novo disco, que está pronto, e que irá sair em breve.

Para além dos concertos “normais”, têm também feito filmes concerto. Como é que as pessoas têm reagido?

São duas coisas completamente distintas. Nós não somos uma banda de nos preocuparmos muito com o espectáculo em si. Estamos ali para tocar as nossas músicas, e fazermos o nosso trabalho. Não nos mexemos muito em palco e há pouca comunicação com o público, e somos por vezes criticados por isso mesmo. Mas nós fazemos aquilo que gostamos. Em relação a estes filmes concerto, é algo diferente, para um público diferente. Nós gostamos de fazer as duas coisas, se bem que gostamos de fazer, acima de tudo, um concerto na base do rock. Em palco, nós conseguimos encontrar sempre caminhos diferentes, gostamos de explorar, fazer as músicas crescer muito mais do que quando são gravadas, fazemos muitas variações... Por exemplo, músicas que gravadas têm quatro minutos, em concerto acabam, por vezes, com 8/10 minutos.

O que querem transmitir com o vosso som?

Há essencialmente um conceito estético. Nós somos uma banda que tem crescido por fases ou por revoluções estéticas. Temos ícones visuais aos quais nos associamos e as músicas acabam por ter alguma relação com isso. Mas em relação às letras, as letras são sempre muito curtas e são sempre muito pessoais. Não temos intenção de transmitir mensagens e são sobre aquilo que nos acontece no dia-a-dia. O que nós fazemos é algo muito nosso, nós sentimos muito isso e dá-nos muito gozo. Às vezes, quando estamos a tocar, acho que tiramos mais prazer do que as pessoas que nos estão a ver/ouvir, mas para nós isso é essencial, porque se tivéssemos a fazer as coisas para agradar a alguém, estaríamos a deturpar tudo aquilo que temos feito.

Em relação ao vosso som, como o auto definem?

É um Indie rock, é um rock experimental, é um rock instrumental acima de tudo. Nós preferimos sempre a intensidade relativamente à técnica, o ruído relativamente à melodia, e temos feito sempre as coisas da mesma forma que é: quanto mais simples melhor. Nunca complicamos muito as nossas músicas. Conseguimos perfeitamente tocar um tema com apenas dois acordes, só que vamos explorando, variando, mas nunca há a preocupação de mostrar aptidões técnicas, que aliás, nem temos. Acho que é muito mais o conjunto, daí acharmos que aquilo que fazemos é muito nosso. Neste momento estamos todos em completa sintonia com aquilo que fazemos e só assim é que funciona. Para teres uma ideia, e de vez em quando inventamos umas regras no nosso trabalho de composição, o tema “I Only Stop To Start Again” tem um bocado a haver com tudo o que estava a dizer. É um tema antigo, mas que tem servido de regra, que é: quando algum de nós não está satisfeito com aquilo que está a fazer, parámos, arrumamos esse tema para o lado e começamos de novo. Não queremos ninguém insatisfeito a tocar. A composição parte sempre do Nuno, ou de mim, ou seja, normalmente o início são linhas de guitarra, e depois vamos acrescentando coisas, e nesse processo de composição, se alguém diz que não gosta do que está a fazer, então parámos e começamos de novo. É uma regra que tem funcionado. Preferimos colocar aquilo para uma gaveta e passado, uns meses, um ano, dois anos, voltamos a pegar naquilo, e até já soa melhor e trabalhamos aquilo de forma diferente. Nós reciclamos muitas vezes as coisas que já fizemos. Para teres uma ideia, neste disco novo, temos um tema que se chama “The Right Place”, que é um tema muito longo, tem nove minutos. Nós já escrevemos este tema à mais de 12 anos, antes mesmo de sermos os Bildmeister. Já o reciclamos à quatro anos atrás, fizemos uma versão nova, entretanto deixamos de o tocar, e agora fizemos de novo outra versão do tema. É a mesma música só que com versões diferentes.

Bildmeister5 Qual é a tua opinião em relação à net vs música que se vive hoje em dia?

Eu não acho mal, porque o preço que se vendem os discos nas lojas é extremamente elevado. Acho ridículo o preço que se paga por um disco. E acima de tudo, porque as bandas que não têm o poder de uma editora grande para conseguirem ter promoção, visibilidade, têm dificuldade em aparecer e fazer concorrência a essas bandas. Portanto, é preferível disponibilizar músicas gratuitam ente, mas chegar a um número maior de pessoas. Acho que essa partilha é saudável, desde que haja um certo respeito pelo trabalho dos autores, como? Imagina esta situação. Nós vamos editar um disco novo e não temos nenhum interesse que de imediato o nosso disco esteja disponível para download, quer seja legal ou ilegalmente. Acho que deve haver um certo período em que as pessoas realmente interessadas possam ter o privilégio de adquirir e ter acesso a essa música. Acho que deve ser paga, mas paga em valores reais, não os preços que se praticam numa loja, actualmente. A partir daí, eu acho importante uma banda conseguir mostrar-se, promover-se junto das pessoas, por todos os meios possíveis, mesmo que para isso tenha que facilitar o acesso à sua música. Apesar de tudo, acho que o benefício é maior, porque consegues ter mais notoriedade. As bandas que não têm acesso a meios de promoção e a canais de divulgação, sentirão dificuldade em crescer, porque se não partilharem não vão conseguir chegar a um número de pessoas tão grande, e no caso de Portugal ainda mais difícil é, porque é um mercado muito pequeno. Eu já falei isto várias vezes: há dez anos atrás era mais fácil tocar, era mais fácil conseguir concertos e eras melhor pago. Hoje em dia é extremamente difícil. Acho que os programadores dos espaços do circuito de bares que existia à dez anos atrás, é quase inexistente, são poucos os resistentes. Um dono do bar, agora prefere ter lá um DJ, porque dá menos trabalho, não tem de pagar tanto dinheiro, e tudo funciona bem. Se tiverem uma banda com música ao vivo, as pessoas começam logo a torcer o nariz – não sei porquê - e sabe que à partida vai ter de pagar muito mais dinheiro que a um DJ. As condições são difíceis. Lembro-me, também, que no início dos anos 90 houve um boom de novas editoras, que entretanto praticamente desapareceram, nenhuma delas conseguiu chegar a um patamar onde conseguissem fazer concorrência às grandes editoras e distribuidoras nacionais. No entanto, tenho a ideia que com esta nova geração do Myspace, as bandas dependem menos das editoras e já conseguem fazer sozinhas o seu trabalho, e acho isso extremamente saudável. Porque quem tem uma banda, e se perceber como tudo funciona, quer a nível da divulgação, da distribuição, promoção, é muito saudável para eles próprios, porque ninguém bate à porta de ninguém. É preciso ir lá. Se for preciso sermos nós a pegar nos discos e leva-los às lojas e pô-los a vender, vamos ter que fazer esse trabalho, porque ninguém o vai fazer por nós. Portanto, acho todo este boom de Internet, Myspace, partilha, quer legar ou ilegal, faz com que conheças bandas, algumas delas incríveis, que de outra forma não terias acesso. Mesmo a nível de música gratuita, os blogs têm tido um papel fabuloso. Um blog torna-se numa referência de consulta, porque sabes que aquela pessoa que faz o blog, publica artigos novos, dá a conhecer pessoas novas, autores novos e disponibiliza normalmente, alguns temas dessas coisas novas. E teres acesso a essa informação de forma tão fácil é muito bom, e ninguém pode deixar de ouvir música e ouvir coisas novas. Quem sabe se um dia não descobres que há uma banda que fez exactamente um tema igual ao teu. É possível, porque hoje em dia já nada se inventa, tudo se recria, tudo se reinventa, já não há grandes novidades na música. E outra coisa que tenho observado, é que os ciclos, as tendências musicais deixaram de existir. Aquela coisa de: nos 80 foi o pop/comercial, anos 90 um regresso do rock, o alternativo, os novos punks… Esses ciclos acabaram, ou então são ciclos muito curtos, de meses, um ano. E a Internet tem toda a responsabilidade disso, porque facilita-te o acesso a muita coisa.

Falaste de concertos e a escassez de locais para uma banda se apresentar ao vivo. Achas que está assim tão mal?

Sim, há dez/oito anos atrás, era muito mais fácil. Nós tínhamos um circuito e era muito fácil marcar 6/7 datas seguidas. Mesmo a nível local, aquele pequeno circuito de barzinhos da terrinha, havia tantas possibilidades. Por exemplo, em Vila de Conde, a nossa terra, não há um único sítio que faça música ao vivo, nem na cidade em si, nem em qualquer freguesia do concelho. O único sítio que ainda deve fazer uma programação mais ou menos regular é a Azenha, que tem à volta de 20 anos. E à dez anos atrás, embora estivéssemos a começar, conseguíamos ir tocando ao vivo. Com 15 dias de antecedência marcávamos um concerto e os locais estavam mais receptivos. Lembro-me que também não havia esta coisa da bilheteira, das percentagens, não, era tudo com cachet. Chegavas lá, combinavas o preço, e recebias aquele dinheiro, quer tivesse cheio ou não. Agora não é assim, depende muito das bilheteiras…

As pessoas também parecem que não se dão ao trabalho de ir uma banda nova. Tens essa ideia?

Sim, tenho essa ideia e acrescento mais alguma coisa. Saberes que num sítio se faz música ao vivo regularmente, podem deixar de lá ir as mesmas pessoas, mas vão outras, no entanto, isso não acontece. Por exemplo no Porto, no Porto podes tocar no Plano B, nos Maus Hábitos, na Fábrica do Som, no Mercedes, em Passos Manuel (embora não com tanta frequência), no Uptown, e se pensares bem, não é muito mais que isso. Locais com programação regular – todas as semanas – de música ao vivo, nem chegam a dez na segunda maior cidade do país. O Porto não está bem a esse nível, mas o resto do país também não. Outra coisa, não gostamos de ir tocar a Lisboa, porque não nos compensa. Primeiro é uma viagem relativamente longa, e cada que vez que vamos a Lisboa temos prejuízo, o que é absurdo. Fomos há um bom par de anos ao Santiago Alquimista, e tivemos prejuízo financeiro. Ok, isso não é o mais importante, queríamos ir, queríamos tocar, fomos, foi engraçado, mas nenhum de nós vive à custa disto, antes pelo contrário. Isto exige um investimento permanente, quer de tempo, quer financeiro, e muitas vezes abdicamos de outras coisas, que também gostamos para nos dedicarmos à banda. É um trabalho que normalmente é invisível para a maioria das pessoas. Quem sabe que vai haver um concerto, chega lá à hora do concerto, vê a banda a tocar e pode ir-se embora. Mas a banda chegou lá ao início da tarde, teve a montar o material, a fazer som, teve a tocar, tem de esperar, desmontar o material e voltar para casa. É um dia de trabalho.

Qual a tua opinião em relação ao actual panorama musical nacional? Tens andado atento?

Mais ou menos. Há projectos que eu gosto, todos eles muito independentes. Gosto do Paulo Furtado e do trabalho que ele faz no Ligendery Tiger Man. Gosto de bandas que têm um universo paralelo ao nosso, como os The All Star Project de Leiria. Admiro o trabalho dos Lobster, acho que é uma dupla completamente explosiva e completamente despreocupada e têm uma atitude bastante positiva relativamente à forma como encaram a música. Não sou, nem somos, grandes admiradores dos projectos pop, especialmente aqueles que são cantados em português mas sem qualquer tipo de antipatia. No entanto, reconheço que há autores como o David Fonseca, os Clã, que estão a fazer o trabalho deles e é saudável e fazem bem aquilo que fazem. Depois há outras bandas, tipo, sei lá... na verdade, não ando assim tão atento à música que se faz por cá. (risos) Gosto dos Sizo também, são nossos amigos. Há os Linda Martini, que não aprecio especialmente, mas acho que estão a trabalhar bem. Gosto também muito do Old Jerusalem como compositor.

E do actual estado geral do país?

Estado geral do país!? Isso é uma coisa muito séria e nem sei que te diga. (risos) Quase que me apetecia emigrar. Eu viajo muito, fruto do meu trabalho, da minha actividade profissional, e às vezes estou no estrangeiro a fazer as coisas mais simples do mundo que é: estar a fazer compras no supermercado. Esqueci-me da pasta dos dentes na viagem, e vou ao supermercado comprar, e enquanto circulo pelo supermercado começo a ver os preços das coisas e é absurdo os preços das coisas serem iguais aos de cá, com a grande diferença que cá temos muito mais dificuldade em arranjar emprego e se recebe três vezes menos que noutro país qualquer. Nem sei, acho que é uma coisa que nem vale a pena entrar muito que é para não se ficar deprimido.

Bildmeister4E agora, qual o futuro dos Bildmeister?

O futuro dos Bildmeister passa pelo lançamento do novo disco, que se vai chamar “Model FC 840”, que também é o título de um tema. Foi gravado, um bocadinho apressadamente, apressadamente no sentido de o ter pronto mais rápido do que aquilo que pensávamos, por causa do convite para irmos tocar ao Festival South By Southwest [que decorreu em Março, no estado do Texas, EUA] e para o podermos levar connosco. Aliás, a nossa intenção é apresentá-lo no South By Southwest, levar já uma edição connosco, e aproveitar o facto de nesse festival estarem muitas editoras, muitas distribuidoras, programadores de festivais, à procura de bandas novas, coisas emergentes. Quando voltarmos, e esperamos trazer coisas novas e boas nomeadamente a nível de distribuição nos EUA ou Inglaterra, aí sim vamos pensar a sério na promoção do novo disco.

Qual a tua personagem preferida de banda desenhada?

Banda desenhada... (pausa) Fui um ávido consumidor de banda desenhada quando era miúdo, e tenho de confessar que fui um consumidor da Walt Disney. Portanto, terá de ser uma personagem da Walt Disney, e nesse sentido, será sem dúvida o Pato Donald. Pode ser um cliché, mas era a personagem que mais me divertia.

Curiosidades:

Porquê o nome Bildmeister?

Porque nós tínhamos na nossa sala de ensaio muitas televisões antigas e algumas delas eram modelo Bildmeister, que significa em alemão “mestres da imagem”.

Influências?

Nós somos quatro pessoas muito diferentes. O Nuno, que é o outro guitarrista, gosta muito da cena sonic: Sonic Youth, Spacemen 3, Spiritualized. O Gil, que é o baterista, tem grandes influências do rock, do garage, do rock'n'roll, do surf. O João, não vou responder por ele, porque gosta de muita coisa. Eu, gosto de música de um universo mais independente, mais alternativo, um pop mais alternativo, como por exemplo os Pavement. Mas as bandas que estou a dizer, são no fundo referências comuns a todos, pelo menos as mais assumidas. No entanto, estamos numa fase que quando entramos na sala de ensaio elas ficam todas à porta. Nós não nos importamos que nos digam que fazemos uma cena tipo Sonic Youth, mas isso não é consciente, porque quando estamos na sala de ensaio fazemos aquilo que gostamos e aquilo que não gostamos vai para o lado. Por isso, sentimos aquilo que fazemos como muito nosso, algo muito pessoal.

Concerto, ou concertos marcantes?

Por exemplo, na Fábrica do Som. Nós tocamos lá à um ano e qualquer coisa e foi muito curioso. Demos o concerto com condições excelentes, um som óptimo, muito alto, tal como nós gostamos, e foi dos sítios que mais sentimos prazer tocar. Detesto ir tocar a um sítio onde me venham pedir para pôr o som do amplificador mais baixo. E nessa noite, aconteceu uma coisa inacreditável. Demos o concerto, a casa não estava cheia mas estava bem composta, já tínhamos desmontado o material e pediram-nos para tocar outra vez. Voltamos a montar o material, demos um segundo concerto, e foi um dos momentos mais sórdidos e inacreditáveis que já passamos. Entretanto, chegou lá uma malta vinda não sei de onde, que sabiam que íamos estar lá, e os responsáveis da Fábrica vieram ter connosco e disseram: “Chegou agora muita gente que não viu o concerto, toquem outra vez, por favor!”. E demos um terceiro concerto, mais curto, cerca de uma hora, mas foi fabuloso, foi uma experiência incrível. Também já tocamos em sítios onde praticamente estivemos a ensaiar. Esta coisa de tocar ao vivo, tem destas coisas. Na semana passada, fomos tocar aos Açores, fomos tocar à Ilha Terceira. Não esteve muita gente - por outras razões - mas fomos muito bem tratados e divertimo-nos imenso. Um fim-de-semana nos Açores é sempre muito bom! Conhecemos pessoas fantásticas e arranjamos bons contactos para voltar lá. Lá está, as experiências são sempre diferentes de uns sítios para os outros.

Myspace dos Bildmeister

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