terça-feira, 2 de outubro de 2007

Na Grafonola do Marsupilami com os Fitacola

Dois anos de existência vividos com grande intensidade, faz dos Fitacola uma das bandas do underground nacional mais ouvidas e mais requisitadas no nosso país. Após o EP “Rebonina e Pensa”, entraram precisamente ontem – 1 de Outubro – em estúdio para gravar aquele que será o primeiro longa duração da banda! O Marsupilami aproveitou a dica e esteve à conversa com os Fitacola e com o Coreia, manager da banda.

Antes de mais, obrigado aos Fitacola, por aceitarem responder a algumas perguntas que vos queria fazer. Obrigado.

Quando e como é que tudo começou?

Tudo começou há alguns anos, algures em 2005. Começou por ser uma brincadeira, já nos conhecíamos desde pequenos e como sempre partilhámos os mesmos gostos musicais decidimos ir para a garagem tentar alguma coisa, isto ainda em 2003, mas era algo muito “na desportiva”. Os “Lost Target” ainda deram 2 concertos!! Entretanto entrou o Besugo (guitarra) e o Libelinha (baixo) e a “coisa” tornou-se séria. Percebemos que se podia fazer algo interessante no panorama musical nacional e então partiu-se para a aventura. Em Março de 2005 gravámos 2 músicas no Mastermix em Coimbra e nunca mais parámos.

Dizem vocês, que andam a remediar desde 2005, portanto dois anos. Dois anos, pelo que me tenho apercebido, intensos. Vai continuar a ser assim?

Extremamente intensos. Só em 2005 demos 25 concertos, o que para uma banda sem qualquer experiência musical e de estrada (excepto o Libelinha que passou por bandas como Full Damage e Not for Sale) é excelente. Passámos pelos Açores convidados pela Impulso Produções e por outro pontos do país (Penafiel, Porto, Faro, Coimbra…). Foi tudo isto que originou o “Rebobina e Pensa”, ou seja, vimos que o pessoal acreditava em nós e que podíamos fazer algo mais pela música nacional. Este EP foi igualmente gravado no Mastermix Studio pelo Pedro Janelas e conta com 6 temas. A reacção a estas malhas foi tão boa que, posso adiantar, algumas delas vão estar no nosso 1º álbum.

Como têm sido a reacção das pessoas tanto em Coimbra como no resto do país, ao vosso trabalho?

Simplesmente fantástico. Em qualquer sítio onde tocamos temos sempre pessoal a cantar as músicas, é sempre uma grande festa. A Tour de lançamento do EP durou 3 meses com os fins-de-semana sempre ocupados pelo que dá para ver que a reacção foi mesmo excelente. Em 2006 demos cerca de 40 concertos, passámos por grandes palcos (Queima das fitas de Coimbra, Aveiro e Castelo Branco, Sesimbra Extreme Beach Fest, Lótus Bar, Hardclub, Faro...) e tocámos com a maior parte das bandas que nos influenciaram. Lembro-me perfeitamente de ter chegado um dia à garagem e dizer à malta que nos tinham convidado para fazer a 1ª parte de Tara Perdida na Semana Académica de Castelo Branco. A reacção deles foi: “Oh Coreia só podes estar a gozar!”. Era o concretizar de um sonho!

Li numa entrevista vossa, onde dizem que ensaiam 2 a 3 horas por semana, e que fazem uma música por vezes em 10 minutos. Há mesmo essa química entre vocês os 4? E onde vão vocês buscar a inspiração para o vosso som?

Sim, essa química existe mesmo entre os 4. Alguém aparece com uma letra e passado 10 minutos as bases tão lançadas para mais uma malha, depois é só aperfeiçoar.Infelizmente só se ensaia 2 ou 3 horas por semana pois o nosso baterista estuda na Covilhã, o Diogo (vocalista) estuda e é treinador de ténis), o Besugo é investigador na Universidade de Coimbra, pelo que conciliar tudo isto exige muitos sacrifícios e muito suor. Mas é para isso mesmo que cá estamos!Relativamente à inspiração para o nosso som baseia-se essencialmente no inconformismo, mudança, responsabilidade, não ir atrás dos outros e sermos quem realmente somos.

A nível da divulgação, têm tido dificuldade nesse campo? E como o têm feito?

Bem pelo contrário! Felizmente o nosso trabalho tem sido muito divulgado e até já chegou ao Brasil de onde recebemos inúmeras mensagens de apoio. Em Portugal, na cena underground, somos das bandas mais conhecidas e com maior número de “seguidores”. Somos uma equipa e temos que trabalhar como tal. A divulgação é essencialmente feita pela net. Lembro-me de ter enviado inúmeras cartas com pedidos de apoio, cd’s, etc. No fundo, vale tudo menos ficar parado!

Ainda sobre a divulgação, a net cada vez mais tem um papel primordial nesse campo. Vão continuar a usar a net, como aliás o têm feito, como principal meio de divulgação dos Fitacola e dos vossos trabalhos?

Claro! É o principal meio de divulgação. Para uma banda de garagem a net é obrigatória, pois sem ela torna-se quase impossível conseguir alguma coisa apesar da qualidade musical que possa ter. O Myspace foi a melhor invenção de sempre para as bandas nacionais. Talvez cerca de 70%, 80% dos concertos que demos tiveram “apoio” do Myspace, pois é lá que o pessoal ouve o som, vê os comentários, vídeos, etc. Um promotor ao abrir o Myspace de uma banda fica logo com uma ideia generalizada daquilo que vai ter se convidar aquela banda.Vou deixar também uma palavra de apreço ao grande impulsionador da música underground nacional (em termos de divulgação) Punkpt.com e ao seu mentor! Obrigado Hugo!

Acham que a net, e mais precisamente os programas P2P e consequente partilha/pirataria, poderá ajudar ou prejudicar uma banda com os Fitacola?

Pessoalmente acho que ajuda. Nós nunca deixámos de vender cd’s por existir pirataria. O público português gosta de ajudar as bandas. Sabem que uma banda é difícil de manter, financeiramente falando. Sabem que o material não cai do céu! Então estão sempre dispostos a comprar merchandising. Nós fizemos cerca de 200 t-shirts e vendemos todas, vendemos 2 edições do “Rebobina e Pensa”, cerca de 300 pins, e o dinheiro ganho foi todo utilizado para comprar material novo, pagar despesas (garagem, merchandising…) As bandas quando pedem cachet não é para proveito dos elementos, é simplesmente para se manterem “vivos”. Só quem anda na estrada e quem convive diariamente com as bandas conhece as dificuldades por que passam.

Qual a vossa opinião em relação ao actual panorama musical português?

Portugal tem excelentes bandas, e não digo isto por ser Português, digo porque é verdade. O grande problema é que essas mesmas bandas não se mexem, ou seja, ficam na garagem à espera que venha um senhor com um contrato debaixo do braço. Não pode ser assim! Têm que fazer pela vida. Há aí muito pessoal com vontade de convidar bandas, mas estas também têm que se mexer! Façam uma página no Myspace, enviem cartas, cd’s. Portugal tem um problema gravíssimo que se chama Editoras. Aproveito a oportunidade para agradecer à Sons Urbanos Records (Miguel e Sónia) pelo que têm feito pelas bandas de garagem. As editoras não apostam nas bandas, pois duvidam da sua qualidade, pararam completamente no tempo. Uma banda que queira lançar um cd e apostar numa carreira musical, se não tiver uma editora a apoiar vai conseguir pouco. Por isso é que há poucas bandas portuguesas a tocar lá fora e mostrar que somos muito bons!

Vocês nestes dois anos de existência, e como já referi bastante intensos, deram inúmeros concertos pelo nosso país. Acham que existem locais em número e qualidade suficientes para uma banda de apresentar ao vivo?

Há de tudo! Portugal tem um circuito de locais para tocar muito grande. Se vais ao Porto tocas no Ribeirinha, Cascais (Lótus Bar), Almada (Culto Bar), Lisboa (Musicbox), Faro (Associação de Músicos), etc.… Em termos de qualidade a coisa muda de figura. Já vimos de tudo… de tudo mesmo! Mas o que conta é a vontade que as pessoas (promotores) demonstram em melhorar esses aspectos menos positivos. As bandas também têm que ter alguma compreensão. Em 2 anos de estrada já noto alguma evolução.

Que acham do actual estado do nosso país?

O estado do nosso país inspira algumas das nossas letras... Corrupção, Ganhar ou perder, portanto baste ouvires para perceber que Portugal não está lá muito bem. A nossa mentalidade também não ajuda. Estamos satisfeitos com o que temos e não exigimos mais.

E agora, para quando um álbum dos Fitacola, e quais os vossos próximos passos?

Bem, vamos começar a gravar no dia 1 de Outubro nos Generator Studios com o Miguel Marques. Mais um sonho que se vai realizar. Este álbum vai ter o selo da Sons Urbanos Records e deve sair no início de 2008. Depois contamos fazer aquilo que mais gostamos: tocar ao vivo e mostrar o nosso trabalho.Entretanto e devido aos inúmeros pedido vamos lançar uma edição especial do nosso EP “Rebobina e pensa” com alguns vídeos e musicas ao vivo. Para se manterem informados basta passarem em www.myspace.com/fitacola

Para terminar, a pergunta da praxe, qual o vosso personagem de banda desenhada preferido? Isto, se gostam de banda desenhada! (risos)

Epá, foi a pergunta mais difícil. Isto é uma opinião pessoal, mas vou dizer que é o Super-Homem. Acho que simboliza as bandas nacionais, pois têm q ser verdadeiros Super-Homens para se manterem vivas!

Curiosidades:

Porquê o nome Fitacola?

O nome Fitacola surgiu por se identificar com a banda: por dar um ar de “deixa andar”, desleixado, sem problemas. É um nome sem pretensiosismo, sem a “mania das grandezas” e que, para além disso, procura ser engraçado, terra a terra, é, no fundo, um nome que demonstra a nossa maneira de estar na vida e na música.

A formação foi sempre a mesma desde o início?

Como referi em cima isto começou por ser uma brincadeira e só com a entrada do Libelinha é que demos o “salto”. Mas não podemos esquecer os nossos grandes amigos que connosco partilharam os primeiros acordes: Kiko (baixo) e Pato (Voz).Nesse tempo éramos os Lost Target.
Formação actual: Diogo (voz e guitarra), Libelinha (Voz e baixo), Xico (bateria) e Besugo (guitarra)

Influências?

Nascemos para esta sonoridade e crescemos ao som do punk americano. Ramones, Pennywise, NOFX e mais recentemente CPM 22 têm uma grande quota-parte nisso. Se não fossem os Ku de Judas, os Crise Total, os Censurados, os Tara Perdida, não estaria aqui hoje a responder às tuas perguntas.

Bandas nacionais que têm ouvido?

Os anos de 2006 e 2007 foram ricos em lançamentos, felizmente. Devil in Me estão em grande e não deve faltar muito para estarem lá fora a mostrar como é. Em 2006 foram a revelação e em 2007 a confirmação. Humble estão a mostrar que também se pode tocar Ska-Punk em Portugal (estou curioso para ouvir o recém gravado álbum de banshee). Sk6 (mais na nossa onda) estão a provar que é possível cantar em Português com agressividade. Os Srs. Tara Perdida (álbum novo em 2008), Skalibans, For The Glory, X-Cons..(nunca mais saía daqui)

Obrigado pela oportunidade e por ajudares à promoção.

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