quinta-feira, 19 de julho de 2007

Na Grafonola do Marsupilami com os Conceito:Pele

São ainda uma banda jovem, mas já têm um caminho bem traçado. Já sabem aquilo que querem, e procuram nos concertos que dão, a perfeição. Acima de tudo, têm uma personalidade bem definida. O Marsupilami propôs-lhes uma conversa, eles aceitaram, e as palavras foram surgindo umas atrás das outras, com uma grande simplicidade e sinceridade. Tinham mesmo acabado de ensaiar, e estávamos em vésperas de concerto. A conversa com o Toni (bateria), o Orlando (guitarra) e o Luís (voz) dos Conceito:Pele, segue já de seguida…

Marsupilami (M) - Antes de mais, obrigado aos Conceito:Pele, por aceitarem responder a algumas perguntas que vos queria fazer. Obrigado.

Luís (L) - Obrigado nós.

Toni (T) – Olha, acabámos mesmo à bocado de ensaiar!

M – E já agora, como correu o ensaio?

L – Muito bem!

M – E tudo pronto para amanhã (dia 13 de Julho)?

L – Muitíssimo! Vamos apresentar uma nova perspectiva sobre o nosso trabalho. Vai ser muito importante a resposta das pessoas que conhecem o nosso trabalho. Acho que estamos todos a arder em vontade de tocar.

Orlando (O) – Arder é uma boa palavra… Com este calor. (risos)

M – Deram mais algum concerto depois do da Fábrica de Som?

L – Não.

O – Não, foi o último. Era o último que tínhamos marcado antes de o Joel sair da banda (antigo baixista).

L - … de forma que temos ensaiado com a nova baixista.

M – Quando e como é que tudo começou?

L – Era um dia chuvoso, e o Orlando andava a deambular na rua. Gritava, chorava, e eu cheguei ao pé dele e dei-lhe a mão… ok, era demasiado sugestivo, desculpem. (risos)

O – Ora bem, eu o Toni tínhamos outras bandas. Eu estava nos Reckless á experiência, o Toni tinha de um grupo grunge “á lá Nirvana”, tocava 30 músicas por ensaio à loucura, e decidimos que estava na altura de fazer algo nosso. Então há dois anos começamos a formação da banda com uma musiquinha que era o lugar em mim. Entretanto, entrou o Manuel Alves para a voz e o Joel Meireles para o baixo. Por virtude do tempo e outras situações, eles acabaram por sair, e a formação ideal encontramos agora com a entrada da Rita para o baixo. Com o Luís, tocamos desde Janeiro.

L –
Obrigado pelo amor que me guardas.

O – (risos) Sem dúvida que a entrada do Luís permitiu uma primeira mudança na banda, mesmo em estilo musical. Gravamos a nossa primeira maquete em Fevereiro.

M – No fundo os Conceito:Pele não existem assim há tanto tempo…

O – Sim. Somos ainda uma banda jovem quando comparada no panorama.

M – Como tem sido a reacção das pessoas ao vosso trabalho?

O – Fabulosa na minha opinião. Pelo menos não esperava tanto alvoroço.

T – Não sei se estou a responder á pergunta, mas tivemos muitos concertos este ano, e foi essencialmente graças à gravação.

O – Exacto! E os concertos seguintes foram consequência de nos verem ao vivo. Nós tínhamos acabado de gravar e toma-mos a decisão de mandar para todos os concursos. Precisávamos de rodagem, de calejar as mãos. Não fomos com intenção de ganhar nada, apenas de fazer rodar o nome e de ganhar experiência. E entramos em todos que mandamos a partir de Março, excepto o Termómetro.

M – Acham que cantando em português é mais fácil a aceitação por parte das pessoas? Isto falando cá em Portugal…

L – Esse é um tema bem espinhoso.

O – Eu acho que é igual.

T – Ihhh, que testamento aí vem…

O – Eu acho que se criou um pouco agora uma “trend” de cantar em português. Claro que funciona para os dois lados, há coisas boas e coisas más, mas acho que a música vale por ela mesma, tanto cantada em português como em inglês. Nós desde o início, decidimos em português até porque o que queríamos expressar passava por existir um entendimento claro. Conceito:Pele tem uma ideia por trás, apesar de já nos terem chamado Pele, Concreto Pele entre outros.

M – Foi então algo definido logo no início. Quando o Luís entrou para a banda, já cantavam em português também?


O - Sim foi algo desde o inicio, e já antes do Luís entrar cantávamos em português. Muito do trabalho dele, e ele pode falar melhor disso, passou por essa adaptação.

L –
Era uma onda diferente.

M – Como assim?

L – No meu ponto de vista, de alguém que estava de fora e posteriormente entrou, acho que os Conceito:Pele tinham um registo um pouco marcado pelo pop rock, bastante fechados ainda. Como explicar? Tinham ali qualquer coisa, se calhar esse Conceito:Pele, mas não conseguiam passar isso para fora. Não sei, acho que agora existe outra força. Cada elemento explora-se de forma mais intensa. Existe grande comunicação entre nós, e isso é fulcral. Queremos todos o mesmo objectivo: tirar prazer nos palcos.

O –
Eu acho que é simples de explicar. Nunca tivemos espaço como temos agora para evoluir, para o que verdadeiramente queremos. Com outros elementos tínhamos outra música, algo que foi evoluindo claramente. E agora sim, temos algo que podemos chamar de consistente, apoiado exactamente no que o Luís falou. Conseguimos nos expressar melhor.

M – Pensam em gravar mais coisas num futuro próximo?

L – Temos uns planos.

O – Sim, temos um plano, mas ainda não podemos falar disso. Ainda não é a altura certa para revelar, mas podemos dizer que temos um plano ambicioso, e tenho medo, confesso. A ambição mata muitas bandas, mas com os últimos ensaios, a ambição juntou-se a certezas e á confiança.

M – É preciso ambição…

O – Concordo, mas o limiar entre a ambição e a ilusão, é ténue.

L – Oh… a ilusão!

O – Já dizia as palavras do Luís numa música: “A ilusão de um fim”, e eu explico. Rapidamente. É óbvio que fazemos música e queremos continuar a faze-la, e que temos os nossos objectivos. Queremos seguir e mostrar a nossa música, mas quando se quer mais do que se tem num determinado momento corre-se o risco de explodir, e nós temos acima de tudo, desde o início algo que é fundamental: Humildade. Nós temos a noção que só assim, e podemos até não chegar a nenhum lado por causa disso mesmo, é que podemos fazer música e sentirmo-nos bem com o que fazemos. É isso que temos de ter na cabeça. Não me agrada a ideia de entrar á rockstar e exigir mundos e fundos quando não se mostrou nada por isso, embora concorde com a ideia, de exigir o que é devido, quando é devido e porque é correcto.

M – A nível da divulgação, têm sentido dificuldades?

L – Não. Acho que surpreendentemente as coisas têm surgido da forma que não estávamos à espera. Já recebemos contactos de duas rádios para passarem as nossas músicas. O nosso trabalho parece estar a ser valorizado aos poucos. Não temos pressas, e sabe mesmo bem!

O – Temos de pensar que nós não temos o apoio de ninguém, fazemos tudo sozinhos e conseguimos uma divulgação que julgo ser óptima. Confesso que aqui houve algo de importante, o Myspace, que nos permitiu tocar com bandas que têm mais nome, e o apoio de bandas de cá que já têm caminhos bem traçados e que também acharam que tínhamos valor. Sem dúvida, e não posso deixar de referir, os Homem Mau, os Chemical Wire e os Blind Charge que são grandes amigos, e que tocar com eles permitiu-nos atingir também o público de maneira diferente.

M – Vão continuar a usar a net como principal forma de divulgação, e continuar a disponibilizar totalmente o vosso trabalho via net?

O – A net é o principal meio para todos. Todos os músicos, hoje em dia pensam na net primeiro. Disponibilizar totalmente o trabalho via net, ora eu não me importava nada. Acho que se alguém gostar mesmo, compra o CD depois e vai ver a banda e paga bilhete para ver a banda. Acho que as pessoas têm de perceber também, que a qualidade de um mp3 não é a de um CD. Ora, se eu adoro Pearl Jam saco os mp3, mas como fã compro o CD, porque quero qualidade máxima no que ouço, e porque gosto da banda, colecciono os Cd’s. E porque não é apenas o CD, é a capa, a informação que traz. Os Tool são o perfeito exemplo disso. Sacarias os mp3, mas vias aquela capa como o último álbum, era quase um crime não comprar o CD. A capa e o artwork não o sacas da net.

L –
Sem dúvida. Enquanto as bandas poderem elas mesmo, disponibilizar o trabalho integral pela net, é óptimo. Claro que com o tempo, juntam-se novas variantes que inviabilizam o acto.

O – Acho que tens de ser suficientemente inteligente para pensar que aqui há duas variantes: há quem quer os mp3 para ouvir e há os fãs. Depois, há o público que queres levar aos concertos que no fundo são os dois juntos. Depois tens de fazer algo realmente atractivo para os fãs. A arte livre é um conceito bonito, mas se fosse assim não havia artistas, que nem dinheiro para um tripé teriam. E então em Portugal com os preços da parte técnica, meu deus! Aqui tem de haver uma certa adaptação do sistema e o sistema se calhar está perto do fim. Dou valor ao que fizeram os Artic Monkeys. Se quiseres qualidade máxima aliada á portabilidade compravas a USB com capa, caixa, invólucro, artwork. Foram inteligentes e perceberam o que a modernidade pede.

M – Acham que quando lançarem um álbum, o poderão fazer dessa forma?

O –
Temos umas ideias. (risos) Mas o álbum vai estar na net disponível em mp3.

L – Concordo.

O – Agora temos umas ideias para as pessoas comprarem outro tipo de coisa.

M – Ao nível de locais para tocarem… Acham que existem em número e qualidade suficiente?

O – Ui, nem sei que responder. (risos)

M – No Porto por exemplo?


O – Acho que há locais.

L –
Ás vezes os aparentemente piores, são os melhores e vice-versa. (risos)

O – Não há é a correcta administração dos locais. Nós tocamos desde Março, a tempo inteiro e já passamos por tudo. Desde armazéns de karaté…

L – Já nem me lembrava… (risos) Um dojo de karaté e nós a tocarmos no tatami!

O - … a segundos andares em moinhos, a bares lindíssimos com candelabros de cristal. Esse fica para a história… (risos)

L – E palcos ao ar livre! Esse então, Évora, para nunca esquecer!

O – Évora foi brutal. No jardim, um palco quase de “queima”, o que é realmente surreal. Vir de lá e tocar tipo num segundo andar dum moinho. Isso é brutal! (risos) Mas, nós tocamos em qualquer lado, tem é de haver vontade não só nossa, como de quem faz as coisas.

M – E voltando á questão em si, há locais suficientes?

O – Eu reitero a minha resposta, acho que há. Não há é uma boa administração dos mesmos.

L – Eu acho que cada vez mais a música é explorada nos espaços, parece tornar-se numa forma comum de atrair clientes. Então parece haver mais oferta, mas é como o Orlando diz, tudo difere da forma como se gerem os recursos.

M – Qual é a vossa opinião em relação ao actual estado do país, no geral?

L – (risos)

O – Politicamente não falo. Já há os U2 para banda politica. (risos) Culturalmente, havia pano para mangas (e mangas não o fruto).

L – Enquanto antes tinhas grupos pequenos de interesses, agora tens massas de gente a fazer diversas coisas. Esta geração parece-me muito variada.

O - Musicalmente, o maior problema para mim. Para quê existir 40 festivais de teatro, musica e afins, se temos 10 pessoas em cada? Acho que primeiro é fundamental renovar o interesse das pessoas, e depois dirigi-lo adequadamente até se chegar aos 40 festivais cheios.

M – E os festivais normalmente são para os “grandes”…

O – Óbvio! Nós há pouco tempo tomamos a decisão de não tocar no Porto durante pelo menos dois meses. Tínhamos tocado três vezes num mês. Não faz sentido oferecer a mesma coisa constantemente. Nos festivais é igual, entram sempre os mesmos, provavelmente pela mesma ordem. Sabemos todos como funciona essa árvore.

M – Agora voltando atrás um pouco. Onde vão os Conceito:Pele buscar a inspiração para as vossas músicas?

O – A tudo que me faz sentir bem e falo apenas por mim. Não falo só de sentimentos de amor, mas em tudo que me faz sentir bem. Arte, cinema, relacionamentos, relacionamentos trágicos…

L – Olha, eu mergulho dentro de mim, e sendo eu um reflexo de tudo o que observo, é muito complicado dividir!

M – Bem… Para acabar, qual é a vossa personagem preferida de banda desenhada? (risos)

L – Ohhhhh… Está louco! Isso revela muito da pessoa! (risos)

O – Sinceramente… Hobbes! (risos)

L – Que horror, vou soar àqueles putos! É o Batman e o Spiderman! (risos)

O – O Toni diz Spiderman. Dois para o Spiderman! Um para o Hobbes! Um para o
Batman!

L – Aquela cena de serem eles sem serem realmente. A necessidade de esconderem quem são!

O – Também gosto do Marsupilami! (risos)

M – Estava a ver que ninguém se lembrava do Marsupilami. (risos)

L – Ohhh, vocês é que nunca viram Batman! O gajo é fixe! (risos)

Curiosidades:

M - Porquê o nome Conceito:Pele?

L – A resposta a essa pergunta tens na biografia da banda no Myspace. É a ideia de todo o mundo interior, tudo aquilo que não se vê. O que está por baixo da pele. A pele acaba por ser o reflexo do que és por dentro, a um nível físico, claro, em jeito de analogia. É Mesmo o microcosmo que a pele segura, não é bem segurar, mas não encontro a palavra. Que a pele envolve!

M – Influências musicais e literárias?

L – Vou falar um pouco mais de mim, que dos outros é sempre mais complicado. Jeff Buckley, Pink Floyd, Radiohead, A Perfect Circle, Tool, o folk americano: Antony and The Johnsons, Devendra Banhart, Cocorosie, Ninca Simone. Claramente Ornatos Violeta (mas ás vezes parece “pecado” referi-lo, na medida em que a crítica absorve a ideia de cópia, e não é isso que fazemos, acho-nos bastante diferentes de Ornatos). Tenho aquelas que não dispenso, absorvo música como um louco. Madredeus, Ornatos Violeta, Pluto, Clã. E devo salvar Clã, que é uma banda que eu adoro. Venero o trabalho da Manuela Azevedo. Aquela mulher é um espectáculo! Mais… Claramente Homem Mau, grandes amigos do pessoal, adoro o som deles. Chemical Wire. Enfim, eu sou daqueles que ouve de tudo! A nível literário são, Leão Tolstoi, Fernando Pessoa, Edgar A. Poe, Dostoievski, José Luís Peixoto, Almada Negreiros, Franz Kafka, Mário Sá Carneiro, etc, etcm etc. É sempre difícil este tipo de pergunta…

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